Cais Sodré Funk Connection no Music Box, dia 8 de Novembro

Tivémos o prazer de receber, numa das nossas últimas aulas a extraordinária Tamin, cuja entrevista foi publicada no nosso blogue. Aquando de essa aula, Tamin referiu que a banda onde participa, os Cais Sodré Funk Connection (CSFC) iriam atuar no musicbox em breve, e tendo eu ficado admiradora da sua voz, decidi investigar.
Os CSFK estrearam o seu álbum “You are somebody” em 2012 e congregam elementos dos Cool Hipnoise, Orelha Negra, Afonsinhos do Condado, Mr Lizard, Spaceboys, Cacique 97 e Sitiados e conseguem produzir um som funk, acompanhado da voz repleta de soul de Tamim.
Este fim de semana, vão atuar pelas 00h00 no musicbox, sendo uma boa sugestão para sábado à noite.

Texto por Rita Silvestre.
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Entrevista a Tamin

10698615_10204983950457653_6623082110491593060_nTamin, é uma jovem cantora de soul portuguesa, com uma voz impar. Tem vários projetos no mundo da música ligados ao soul e ao hip pop. O seu principal projeto são, os “Cais Sodré Funk Connection”. Fique a conhece-la melhor nesta entrevista.

(Mauro) Quando é que sentiste que a tua voz ia ser um instrumento para a vida?

(Tamin) Bem eu comecei a cantar na igreja católica, apesar de neste momento ser agnóstica, comecei a cantar na igreja católica obrigada pela minha avó, a partir dos 9 anos de idade e então era só aquele tipo de música: “Avé Maria… Pronto… não!” (canta-nos em falsete e ouvem-se risos) E eu nessa altura não sentia absolutamente nada sobre a minha voz, achava que aquilo era um passatempo, ia para lá aos Domingos de manhã e cantava um bocadinho… e era aquele bocadinho e pronto. Quando eu comecei a ouvir o meu avô cantar fado, ele era fadista, fazia fado humorista, fado para rir, comecei a ouvi-lo cantar e achava muita graça e comecei a cantar com ele, no Ribatejo, que o meu avô é do Ribatejo, era… já não está vivo por acaso. Comecei a cantar com ele naquelas sessões que eles têm dos velhotes e essas coisas todas. Comecei a cantar fado com ele na brincadeira, mas depois aquilo começou-se a tornar sério. Foi a partir dai de quando eu comecei a cantar em casas de fado e a ser convidada para ir para as associações da Ajuda, representar a Ajuda e tudo mais, em fado, que eu comecei a pensar, bem se calhar até consigo fazer disto profissão… e pronto foi a partir daí.

(Laura) Para além do fado e de soul que outros géneros é que já cantou?

(Tamin) Bem eu gosto de muita coisa! Gosto muito de cantar rock, como já disse, gosto muito de soul e gosto muito de fado, mas… pronto é aquele tipo pelo plágio. Mas também gosto às vezes um bocadinho de pop, então às vezes cantava… sei lá… a Christina Aguilera é muito brega, mas havia uma música ou outra que eu gostava (ri-se) e eu cantava, pronto. Mas não me desviava muito do soul e do fado, por acaso era um bocado… parecia que tinha umas palas, não passava dali. (risos)

(Rui) Cantavas alguma coisa da Amália ou não?

(Tamin) Ah sim! A Amália no fado para mim é como a Aretha Franklin no soul, mas nas casas de fado eles não gostam que se cante Amália Rodrigues porque acham que estamos a desrespeitar os outros fadistas que não cantam Amália e então estão a ser desvalorizados na avaliação do público. Como a música da Amália é mais conhecida e eles cantavam música menos conhecida, depois eu ficava a estrela do show (ri-se) e eles não.. E então eu tive de começar a cantar outras fadistas, por exemplo Maria da Fé, que não

chegou ao patamar da Amália, mas que para mim a Maria da Fé era como a Etta James e a Aretha a Amália.

(Rui) Dás aí um cheirinho de fadinho?

(Tamin) Dou , deixa lá ver… queres a Amália ou a Maria da Fé?

(Rui) Eu prefiro a Amália… se é para escolher… (risos) se quiseres cantar outra coisa estás à vontade!

(Tamin) Eu canto um corridinho dela (e começa a cantar o corridinho (O Namorico da Rita, da Amália)

No mercado da ribeira

Há um romance de amor

Entre a Rita que é peixeira

E o Chico que é pescador

Sabem todos que lá vão

Que a Rita gosta do Chico

Só o homem dela é que não

Consente no namorico

Quando ele passa por ela

Ela sorri descarada

Porém o Chico à cautela

Não dá trela nem diz nada

Que a mão dela quando calha

Ao ver que o Chico se abeira

Por dá cá aquela palha

Faz tremer toda a ribeira

(grita-se “Ah fadista!” e ouvem-se aplausos)

(Zé) Podias juntar a soul e o fado ?

(Tamin) Já tentei, mas não gostei do resultado. Porquê?! Porque eu não gosto de profanar o fado. Por exemplo, se me dizem… ai gostas mais da Mariza ou da Ana Moura? Mil vezes a Ana Moura, para mim a Mariza não é fadista é uma cantora. Ela não canta fado. Ela canta ali (pausa) uma fusão qualquer. Para além de que a Mariza para mim deveria cantar Soul. Ela tem uma voz incrível para cantar soul e não aproveitou aquilo da forma… enfim… isto é a minha opinião. Mas para mim a Ana Moura é muito mais fadista do que a Mariza.

 

(João) A tua voz é extraordinária e grande demais para o nosso país, que é pequenino. Alguma vez tentaste ou se pensas no futuro fazer alguma coisa lá fora?

(Tamin) Já houve oportunidades. Por exemplo, houve uma música que eu fiz com o Valete, que gosta de “masterizar” as músicas todas nos Estados Unidos, porque os melhores trabalhadores de som estão lá, e o rapaz que “masterizou” essa música “masteriza” montes de pessoas do hip-hop. O hip-hop nos Estados Unidos é um mundo, aquilo tem por onde escolher até mais não, e ele ficou super impressionado, adorou, queria conhecer-me e queria que eu fizesse isto e aquilo… mas isto falar de boca é tudo muito giro, depois concretizar na hora é que é mais complicado. Depois, os Funk Connection fazem muitos concertos particulares, por exemplo vamos a um hotel fazer um concerto para uma reunião de uma empresa estrangeira, que vem a Portugal passar uma semana. Depois há uns “espertos” da empresa que dizem que têm um amigo que tem uma editora e ficas com o cartão e depois ligas para lá… as coisas assim são muito complicadas! Já tive um feedback positivo de pessoas… por exemplo em Londres, que gostam de me ouvir. Mas é muito mais fácil atingir o público de Londres do que o dos Estados Unidos, porque aí há muita procura mas há muita oferta. É muito difícil vingar lá, temos mesmo de ser “useless”, como se diz lá. Tens de ser incrível, tens de trabalhar muito, ir atrás das coisas todas. Eu prefiro abrir portas na minha terra, porque aqui em Portugal o soul apesar de existir não existe na sua forma pura. Existe misturado com o hip-hop, misturado com uma data de coisas. Mas soul como a Aretha Franklin canta não há. A Aurea faz ali um soul pop, a Marta Ren faz um funk… mas um soul mesmo puro não há e é isso que quero fazer aqui.

Para já, o meu álbum será uma coisa neo-soul, que é uma mistura hip-hop soul, mas aquilo que eu quero para mim no futuro é fazer soul puro em Portugal. E se não há aqui, porque é que eu não o faço aqui?! Porque é que vou lá fora?!

(Mayra) Quando é que descobriu que era cantora de soul se era fadista?

(Tamin) Sabes o que é que é o miRC?! Era uma ferramenta que havia há muito tempo atrás quando não existia nem “Messenger”, nem… bem, quando basicamente não havia nada. Só havia o miRC, que era uma linha de comandos, e nós púnhamos o canal para onde queríamos ir, escrevíamos cw e outras coisas e íamos ter a um canal. E depois havia vários grupos, o do hip-hop de Lisboa, do hip-hop do Porto… e outros. E eu tinha uma demo gravada em casa, que era um cover da Sara Tavares, de uma música que se chama “Borboleta”. Não sei como, pelo miRC chegou às mãos do Sir Scratch que me abordou no miRC.Na altura o meu nome no miRC era horrível. Ele abordou-me e aquilo foi assim no flash, ele disse olha, gostava que fizesses aqui uma música. Pronto, foi o meu primeiro “freeting” no rap. Social eu sou, foi uma música do primeiro álbum do Sir Scratch que se chama Ilusão. Pois se quiserem ir pesquisar à net, é muito mau não vão ouvir (risos), não é a parte do Sir Scratch que é muito bom, mas a minha parte era horrível, já tem uns oito anos. A minha evolução, a partir daí! Eu oiço coisas de há oito anos atrás e eu acho “ai meu deus o que é isto”, o que é que estas pessoas me puseram  a gravar. Bem mas se calhar o Sir Scratch, tinha visão para perceber, que eu conseguia fazer mais do que aquilo, pronto ajudou-me. Foi assim que começou, foi porque uma pessoa do hip hop me convidou para cantar num beat de hip hop.

 

(Rita) Esse álbum novo, vai ser em português, vai ser em inglês, vai ter uma mistura?

Vai ser em português, porque eu já tenho a hipótese de cantar em inglês com os “Funk Connection”, pronto e consigo abordar aquela parte de atacar o mercado estrangeiro, porque é mais fácil com inglês, que é a linguagem universal. Mas eu vou cantar português, aqui em Portugal.

(Zé) É aí que entra o STK, para colaborar para produção ?

(Tamin) Sim, uma das condições de fazer esse álbum, era ter o Sam The Kid como produtor, e eles achavam que era muito difícil. Mas não, porque Sam The Kid é um amigo de longa data, liguei-lhe ele disse logo que sim, (mas estou muito ocupado em tirar a carta de condução, risos).

(Zé) Ele próprio dizia que tinham, em preparação um álbum mais assim relacionado com soul e coisas assim, por isso ele deve estar dentro disso.

(Tamin) Ele têm uma mpc cheia de beats que ele faz, das quarto da tarde, ás quarto da manhã.

(Zé) Mas instrumentais não vão ser de hip pop!?

(Tamin) Vão ser de hip hop, mas depois vai haver uma parte orgânica que têm que ser feita em estúdio, com músicos.

(Zé) Malta do Orelha Negra!?

(Tamin) Sim, possivelmente

(Zé) Cais Sodré não!?

(Tamin) Sim porque a malta do Orelha Negra, é dos Funk Connection, é inevitável. Tanto se calhar vou por lá um João Gomes (nas teclas), pois se calhar vou lá por um Xico Rebelo (num baixo), e pronto vai ser assim uma coisa orgânica, mas também com um bocado de eletrónica (mpc). Pronto para mim o hip hop, também devia ser mais assim puxar nos um bocado mais orgânica, para não ser tudo tão mecanizado.

(Zé) Orgânico é humano, e quebra o lado mais mecânico.

(Rui) Já vistes os talentos, que eu tenho aqui. (risos)

(Tamin) Mais!? Mais nada!?

(Laura) Enquanto artistas, quais são os teus objetivo?

(Tamin) Bem, isto é uma pergunta muita boa. Eu trabalho na PT desde de 2008, eu sempre trabalhei desde os meus 16 anos, mesmo a cantar eu sempre fui muito greedy a nível de dinheiro, porque eu gosto muito de comprar roupa, e sapatos, e malas e como vivia com os meus país o dinheiro era todo para mim e então eu queria era trabalhar e fazer dinheiro e para comprar ainda mais. Então trabalhava, porque eu tirei o 12ºano de informática de programação, fui para uma empresa de informática em Algés, trabalhei lá quarto anos, depois sai, depois fui para a PT e na PT fiquei ao fim de dois anos, passei para supervisora, e pronto quando se passa assim para um cargo assim mais acima, é difícil deixar as coisas assim de um momento para o outro, porque tens pessoas a tua responsabilidade e tens aquele dinheiro garantido ao fim do mês, enquanto com a música eu tenho um manager que me marca concertos, mas posso-vos dar o exemplo, do mês de Setembro que não tivemos nada, foi o pior mês da nossa banda, não tivemos um único concerto. Mas isto está mau, para todas as bandas. Então se eu não tivesse a PT, como é que eu fazia para pagar as contas!? Não dá, então eu tenho que fazer aqui, uma conjugação de horas de trabalho, eu trabalho das 8 ás 16 na PT. Depois das 16 para frente ou vou ensaiar com a banda ou vou para o estúdio, ou fico em casa a gravar demos com o microfone da net, pronto é assim que eu faço.

(Laura) Pretendes seguir a carreira artística?

(Tamin) Pretendo, pois pretendo este ano deixar a PT, já chega (risos) e dedicar-me inteiramente a música. Vou arriscar.

(Laura) Estudaste música?

(Tamin) Nunca ! Tudo o que eu sei, é por experiência. Fui fazendo, por patamares. Por exemplo, a nível de instrumentos, como a guitarra, foi o meu pai que me deu as primeiras lições ( o meu pai era guitarrista ). Depois continuei a desenvolver o som sozinha, mas não sei notas, não sei tocar notas. Eu ouço e reproduzo, só consigo fazer assim. A minha irmã também é muito talentosa, tem uma boa voz, mas é muito mais instrumentista do que eu, ela faz toca um dó, um ré, um mi. Pronto, ela é muito mais metódica que eu, eu não eu sou muito desorganizada.

(Laura) Mas tens “ouvido”?

(Tamin) “Ouvido” tenho (risos).

Aí obrigada, mais?

(Mauro) Já tocaste fora com os “Cais Sodré”?

(Tamin) O que é que consideras fora?

(Mauro) Fora de Portugal.

(Tamin) Tivemos uma proposta, para ir tocar a um festival de “blues” no Texas. Era para ser em Setembro, não aconteceu, era a nossa oportunidade. Cancelaram o festival, que se realizava todos os anos, não sei porque.

(Mauro) Sentes!? Um exemplo, sentes, que és mais, ficas melhor contigo, se fores tocar fora !? Eu por exemplo, ando aqui tenho os meus giggs aqui em Portugal, mas, parece que me sinto um bocado incompleto. Acho que só quando for lá fora tocar, é que sinto que o meu trabalho está a ser reconhecido. Tu não sentes isso ?

(Tamin) Não, porque, olha com os “Cais Sodré” ainda não saímos daqui, mas sinceramente ainda não senti necessidade porque acho que há aqui um mercado muito grande para ser explorado. Há muita gente que gosta da nossa música e então vamos dar mais. Com a malta do hip hop, como por exemplo o Bob da Rage Sence que teve um contracto discográfico, com uma editora espanhola da Galiza, fizemos uma tour em Portugal e em Espanha, tivemos um ano a fazer montes de concertos, tocámos em festivais “metaleiros” na Galiza, bem, aquilo foi uma cena incrível e sinceramente não gostei, porque tínhamos o contrato discográfico porque eles gostavam do Bob, mas as pessoas não. Não conheciam o Bob e então, nós fomos para lá cantar música em português, para os espanhóis, que só gostam de falar espanhol. Não gostei muito da experiência, sinceramente. Mas se calhar, se fosse para Londres ia adorar.

(Vera) Queria só perguntar-te, em relação ao novo álbum se vai ser de originais e se escreves?

(Tamin) É assim eu escrevo, mas eu vou-te dizer uma coisa, aquilo que eu escrevo é um bocado sórdido, eu não sei escrever com técnica, eu escrevo aquilo que me apetece portanto se calhar não é ideal para uma música, e então é aí que entra a parte do interprete, eu vou dar uma ideia a uma pessoa que vai escrever as letras. Vou dizer, olhe eu quero que esta música fale sobre isto, e é o que eu tenho feito até agora com as minhas demos, eu quero que a minha música fale sobre isto e aquela pessoa com aquilo que lhe disse vai-me escrever uma letra, eu não vou dizer a pessoa, mas é muito conhecida.

Finalizou mostrando a música, que fará parte do seu álbum.