Bandas e músicos portugueses a cantar em Inglês… qual a tua opinião?

Respondendo desde já à questão colocada: aos meus ouvidos não faz diferença. Nunca desgostei de um artista português por cantar em inglês, nem adorei um por não o fazer. Sempre me pareceu exagerado exercer juízos de valor sobre uma canção só porque é cantada em português ou em inglês.

Desde os anos ’80 que a música anglo-saxónica domina o mercado músical português, e, portanto, se os músicos absorvem essas influências, quando escrevem as suas canções é-lhes depois quase natural que estas sejam também em inglês. É um fenómeno compreensível. Quando The Legendary Tigerman toca o seu blues rock em inglês, fá-lo porque assim o tem de ser. Porque é assim que o sente e assim que o quer transmitir. Não me parece que haja qualquer coisa de errado nisso. Dentro desta nova geração de músicos portugueses há espaço para excelentes projectos como You Can’t Win, Charlie Brown, noiserv, WE TRUST ou The Glockenwise que usam a língua inglesa nas suas canções e não é por isso que a sua música perde valor ou relevância.

Mas quando Sam The Kid canta “Poetas de Karaoke” não deixa de ter alguma razão. Aliás, se nos anos ’90 e princípio dos anos ‘00 se fez música em português no nosso país foi porque existe essa coisa chamada hip hop, que prima ainda hoje por um excelente uso da língua portuguesa, das suas particularidades, sotaques e expressões idiomáticas. Como já disse, não creio que quem cante em inglês se limite a imitar, até porque acredito que os projectos que acima referi são dos mais originais que a música portuguesa já viu. Ainda assim, a língua de um país é sempre o principal representante da sua cultura e identidade e, portanto, quando a música se alia à língua portuguesa, a cultura e identidade nacionais só ficam a ganhar. Ainda para mais, a própria população identifica-se muito mais facilmente com algo cantado na sua língua. Felizmente, temos hoje excelentes exemplos de músicos que cantam em português (da folk de Samuel Úria à pop de D’ALVA passando pelo roque popular de Diabo na Cruz), não estivesse o país a viver o seu melhor e mais criativo momento musical de sempre.

texto por Teresa Colaço

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Bandas e músicos portugueses a cantar em Inglês… qual a tua opinião?

SamTheKid (STK), um dos artistas que melhor usa a nossa língua, aponta no booklet de Pratica(mente) que o problema não é cantar em inglês, mas sim a construção de uma identidade própria e o “amor, dedicação e alguma originalidade” associados. Autor da música que mais contribuiu para esta discussão, “Poetas de Karaoke”, gerando a indignação de artistas que usam a língua inglesa como Moonspell ou Legendary Tigerman, acrescenta: “Isto não é para quem pode, é para quem quer (…) porque se a evolução for encarada como um trabalho sem gosto, mais cedo ou mais tarde irás desistir.”

A verdade é que na última década e meia o Rock português tornou-se uma minoria nas escolas, sendo substituído pelo Hip-Hop e outros estilos de música urbana, essencialmente devido à “oralidade praticada no dia-a-dia pelos jovens desta geração (…) e “quando pensamos numa banda de rock português vêm-nos à cabeça os míticos Xutos e Pontapés, que cantam em português e são de outra geração”, de acordo com o mesmo autor.

As palavras de STK datam de 2006 e observamos a sua confirmação nos anos seguintes: se podemos atualmente falar de uma identidade para o Rock português, essa será assumida por bandas como Linda Martini ou artistas como Samuel Úria, destaques de uma explosão de carácter alternativo/independente – perante o olhar atento de veteranos como Mão Morta, entre outros -, com um fator comum: a língua portuguesa.

A massificação ocorrida no Hip-Hop, como refere, mais uma vez, STK, “faz com que apareçam cinquenta mil Mc’s de pára-quedas, noventa por cento deles desistem mas, por outro lado, nos outros dez por cento existe a possibilidade de sair dali um Mc que vai fazer a arte evoluir, inspirando outros Mc’s.” É disto que se trata: de referências que inspirem outros e façam evoluir a arte. É a renovação dentro dos diferentes estilos musicais que está em causa quando se fala de identidade e, por consequência, da própria música portuguesa.

“Vocês fazem turismo de emoções que os outros sentem/ Eu faço culturismo de expressões que todos sentem”      (STK, Poetas de Karaoke)

texto por Zé Revés

Bandas e músicos portugueses a cantar em Inglês… qual a tua opinião?

Um tema que sempre gerou alguma polémica em Portugal tem a ver com o facto de algumas músicas compostas e produzidas por cá serem cantadas utilizando a língua inglesa.

Alguns consideram uma afronta à nossa cultura e à nossa língua e que esta tem de ser protegida e defendida, outros dizem que não faz qualquer sentido, que os portugueses quando cantam em inglês fazem-no com um sotaque esquisito… mas também há quem não veja qualquer problema nisso.

Há quem use o Inglês por se sentir mais à vontade. Também há quem considere que certos estilos de música fazem mais sentido se forem cantados na língua inglesa. Outros porque acham que terão mais hipóteses de vingar no mercado internacional.

A mim não me faz confusão nenhuma que haja músicos portugueses a utilizar outra língua que não a de Camões. Percebo que alguns o façam por influência da muita música anglo-saxónica que ouvem desde novos, para além de que em certos géneros musicais talvez faça mais sentido cantar em Inglês. No pop-rock, por exemplo, quando se utiliza a língua portuguesa, esta tem de ser feita de uma forma muito específica… muito nossa, quase criando uma espécie de pop-rock português, como fizeram os inúmeros grupos surgidos nos anos 70 e 80 em Portugal. O que já não acontece com projetos mais recentes, que cantam em português como se estivessem a cantar em inglês, não entendendo que são línguas muito diferentes a todos os níveis.

Penso que aqui, como em tudo, é preciso ter bom senso. Cada um canta na língua que muito entender. Mas claro que se chegarmos a uma situação extrema em que poucos cantarão em português, aí deverão soar os “alarmes” e fazer-se alguma coisa, nomeadamente o Estado, para que a nossa língua volte a ser usada em boa parte da música que por cá se faz.

Relativamente às tentativas de internacionalização por via da língua inglesa, tirando alguns, raros, casos, o tempo provou que não é pela utilização do Inglês que a porta do mercado estrangeiro fica escancarada à música feita em Portugal.

texto por João Catarino