Músico(s)/banda(s) portuguesas que mais vos têm marcado

Gosto acima de tudo de artistas que, como acontece com o rapper de Chelas que já destaquei em oportunidade anterior, transparecem um carácter genuíno em tudo aquilo que fazem, com uma atitude de respeito para com a cultura que representam. Desta vez abordarei três nomes: Linda Martini, Samuel Úria e Mão Morta.

No primeiro caso, Linda Martini é uma banda que lançou o seu primeiro álbum, Olhos de Mongol em 2006 e desde então tem vindo a crescer no panorama do Rock português. As suas músicas, umas mais complexas que outras, são acima de tudo sinceras. As letras são cruas e honestas. A atitude da banda – de quem confesso nunca vi qualquer espetáculo -, é a de um grupo de amigos que se junta e faz música. E assim certamente será sempre mais fácil fazê-lo e de existir uma comunhão de ideias.

No caso de Samuel Úria, falamos de um artista cujas letras são completamente o oposto dos anteriores: poeticamente elaboradas, um verdadeiro cantautor na senda de Fausto, Sérgio Godinho, etc. O artista vindo de Tondela traz as raízes a si agarradas e nunca perde aquela intensidade e simplicidade, por mais que viva rodeado de guitarras elétricas e malta com ideias tão diversas como a das editoras independentes. O último álbum, Grande Medo do Pequeno Mundo, é espantoso.

Por último, Mão Morta. Sinceramente, de todos os álbuns que ouvi deles, aquele que me chamou mais a atenção foi Nús. Logo a primeira música, Gumes, de 20 e tal minutos, chegaria para explicar Mão Morta: sem barreiras, sem leis, apenas seguindo o instinto predador de Adolfo Luxúria Canibal. Ao mesmo tempo, de todos os que ouvi, foi aquele que me pareceu ter uma produção melhor. Depois, há aquela interpretação do universo do Conde de Lautréamont, no espetáculo que a banda fez e que levou a palco os Cantos de Maldoror: que banda melhor do que Mão Morta para, na nossa língua, recriar todo aquele cenário surrealista?

texto por Zé Revés

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Músico(s)/banda(s) portuguesas que mais vos têm marcado

Indo ao encontro do que disse no meu texto de apresentação, o facto de ter uma irmã amante de música e mais velha, fez com que desde muito cedo começasse a “consumir” música, principalmente anglo-saxónica… mas também portuguesa.

Lembro-me de já muito novo ir a concertos dos Táxi, Trovante, GNR, Heróis do Mar, UHF, Rui Veloso e outros. Nunca me esquecerei do concerto dos Heróis do Mar na Juventude Leonina, num jogo contra o Porto nos anos 80, em que a banda desceu ao relvado de helicóptero. Alguns dos muitos concertos a que assisti, foram vistos em comícios, uma realidade que entretanto desapareceu quase na totalidade.

Sempre gostei de muitas bandas e músicos portugueses: Trovante, Heróis do Mar, António Variações, os primeiros discos dos Xutos e Pontapés e algumas coisas dos Delfins, Rádio Macau e Censurados.

Mas houve outras que me marcaram mais e é nessas que eu agora me vou concentrar.

Dos 14 aos 18 anos, aproximadamente, fui um “apaixonado” pelos GNR. Adorava o álbum “Valsa dos Detectives” e a música “Impressões Digitais”.

Vi muitos concertos deles ao longo desses anos e até apareço na foto que está na capa do disco “In Vivo”.

GNR_In Vivo_Back

Os GNR sempre fizeram uma POP muito especial e diferente, tendo uma identidade sonora própria muito específica, algo que durou até ao seu disco mais bem-sucedido comercialmente, “Rock In Rio Douro”. A partir daí, considero que a sua música se banalizou a todos os níveis e acabei por lhes passar a dar muito menos importância.

A Sétima Legião ainda hoje me dizem muito, pela forma única como misturam as influências vindas de Manchester na altura em que surgiram, com os sons mais tradicionais da cultura portuguesa. Excelentes músicas e grandes discos, dos quais destaco “De Um Tempo Ausente”, por ser o que tem as melhores canções, e “Sexto Sentido”, por conseguir de forma magistral misturar eletrónica com gravações de música folk portuguesa.

No início da década de 90, surge um projeto liderado por dois ex-Heróis do Mar, Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves, chamado LX-90 e que tinha como grande objetivo vingar no estrangeiro. Seguindo essa lógica, o seu único álbum, “Uma Revolução Por Minuto”, teve uma versão em português e outra em inglês. Talvez por terem sido demasiado pretensiosos, o disco acabou por passar algo despercebido, mas a mim isso não aconteceu e ainda hoje considero que o disco tem qualidade e uma forma muito própria de fazer música. Os LX-90 acabaram pouco depois e no seu lugar surgiram os Kick Out The Jams, mais rockeiros, que pouco me entusiasmaram.

Também na primeira metade dos anos 90, uma banda vinda de Almada marcou-me muito, não tanto pelo álbum de estreia mas pelo seu segundo e, infelizmente, último disco, “Room Landscapes”. Este é para mim um dos discos de referência no nosso país. Aquela bateria de Marco Cesário, que só entrou para a banda no segundo disco, deixou-me marcas… como é possível fazer uma batida tão forte com um set tão pequeno?!

A meio dessa década surge aquele que talvez seja o álbum POP mais bem conseguido em Portugal, falo de “Lollipop” dos Entre Aspas.

Demorou até me tornar seu admirador, mas quando o momento chegou bateu-me forte. Sérgio Godinho é para mim o melhor compositor português das últimas décadas. Para além de escrever excelentes canções e de dar concertos muito emotivos, conseguiu gerir a carreira de uma forma muito inteligente, renovando-se, chamando para junto de si músicos jovens mas muito talentosos, e, também muito importante, conseguiu afastar-se da ideia de “cantor de intervenção”. Foi por alturas do lançamento de “Domingo no Mundo” que finalmente este senhor me convenceu, por isso aqui vai uma música desse álbum, editado em 1997.

E já que falei em “música de intervenção”, aproveito para dizer que nunca tive paciência para ela, não tanto pela música em si, considero o José Afonso um excelente compositor, mas pelo aproveitamento político que dela é feito, com o qual não me revejo. Na volta, o próprio Zeca, se ainda fosse vivo, talvez já se tivesse demarcado. Como não é o caso, algumas pessoas fazem da sua obra o que muito bem entendem… e o músico já não se pode defender. Felizmente que o Sérgio Godinho ainda está entre nós e que há muito tempo se demarcou dessa coisa de ser “cantor de intervenção”.

Seguindo a ordem cronológica, o que depois mexeu comigo foi o aparecimento de uma banda de quatro desconhecidos vinda de Leiria. Os Silence 4 foram uma enorme lufada de ar fresco na altura em que apareceram. O primeiro álbum é composto por hits atrás de hits, mas para mim o segundo disco da banda, “Only Pain Is Real”, é o melhor já alguma vez feito por cá. Lá encontramos esta genial canção.

Os Silence 4 acabaram e o seu vocalista, David Fonseca, decidiu seguir uma carreira a solo, que durante um bom tempo achei interessante. A partir de “Between Waves”, considero que a qualidade musical decresceu.

“Saída” da banda de David Fonseca, Rita Redshoes chamou-me a atenção desde o início e depois de dois discos muito bons, ao terceiro cometeu o erro de escolher a pessoa errada para trabalhar com ela… pelo menos é o que eu acho.

Mais recentemente, chamou-me a atenção a voz e a simplicidade da música de Márcia. Dois álbuns muito bons já foram lançados por ela.

Também achei muito interessante e inovador o primeiro disco dos Oquestrada, “Tasca Beat – O Sonho Português”, destacando o tema “Se Esta Rua Fosse”.

Entretanto, lançaram um segundo álbum, que não me parece tão interessante como o álbum de estreia.

Sou da opinião de que a música feita em Portugal é dominada pelos mesmos há demasiado tempo. Todos os anos surgem muitas bandas, mas nenhuma consegue vingar de facto. Serão os músicos mais velhos um lóbi que se defende e se protege?! Será que as editoras já não querem saber e arriscar em novos projetos?! Ou é porque os grupos mais recentes são inferiores em termos qualitativos?!

texto por João Catarino