Marina and the Diamonds – Froot

Sem filtros e sem tretas, Marina Diamandis oferece-nos a jóia mestra da sua coroa ao 3º álbum de originais, sumarento da primeira à última fatia.

A luta pela autenticidade e a denúncia da corrupção moral e social têm sido as duas grandes contendas que Marina and the Diamonds tem travado ao longo destes 5 anos de actividade editorial. Causas que a tornam numa das mais interessantes artistas pop da sua geração, mas ao mesmo tempo tão incompreendida e subvalorizada por todos aqueles que não ousam olhar para lá da superfície (quantos pensarão ainda que Electra Heart foi uma tentativa falhada de aproximação ao mainstream?)

Depois de 2 álbuns a olhar para fora, é chegada a vez de olhar para dentro num frutuoso processo de psicanálise e instrospecção que se revela libertador e certamente gratificante para quem se embrenhava demasiado nas teias da ironia e da caracterização. Como a própria, aliás, admite: “Maybe I was ready to change. Maybe I was ready to leave a lot of things I’d held onto in the past behind. I don’t know if that happens to other people when they hit a certain age, but I know that it was important for my future”.

Palavras, é sabido, leva-as o vento, mas quando um disco começa com uma canção tão reveladora quanto “Happy”, sabemos que não lhe poderíamos exigir maior transparência: ” I found what I’d been looking for in myself/ found a life worth living for someone else/ never thought that I could be/happy”. E tudo aquilo que se seguirá ganha uma maior dimensão.

O tema-título é uma estonteante (e longa) produção retro de disco e new wave para pegar, trincar e meter na cesta; “I’m a Ruin” apresenta-a como elemento tóxico de uma relação que se vê obrigada a terminar antes que destrua ambos os elementos. É memorável pelo convite ao sing-along do refrão, mas teima em ser algo repetitiva. “Blue” é do mais cândido que por aqui se encontra, construída à base de harpa e synthpop esparsa, com Marina a confessar arrepender-se da ruptura amorosa de há dois temas atrás (“I need a man to hold on to/ I’m bored of everything we do/ but I just keep coming back to you”).

“Forget” é o triunfo da artista capaz de reproduzir em disco uma performance sustentada pelo apoio de uma banda, como se tivesse sido captada num só take, em cima do palco. Liricamente é redentora (“I’ve spent my days in deep regret/ I’ve been living in the red/ but I wanna forgive and forget”). O calor dos trópicos chega com “Gold”, um dedo do meio espetado ao capitalismo ou aos homens que a tentam conquistar através do vil metal. Como às tantas diz: “there’s no moral to this story, but I can hear my freedom calling me”. E isso é impagável. Em “Can’t Pin Me Down” dá mostras de não ceder às expectativas de terceiros (“I am never gonna give you anything you expect/ you think I’m like the others/ boy you need to get your eyes checked”) ou de comprometer a sua integridade (“You can paint me any color/ I can be your russian doll/ but you ain’t got my number/no, you can’t make me small”).

Na soturna “Solitaire” confessa o apreço pela solidão, temendo, no entanto, a carga negativa associada à palavra. “Better than That” é o aviso que deixa aos homens que um dia se depararam com uma Electra Heart na sua vida (“she’ll network ‘till her dreams come true, even if it means getting into bed with you”), num tom mais complacente do que recriminatório (“I know that you’re not to blame, you just got caught in a game”). “Weeds” soa a algo que Shakira faria num dos seus temas em castelhano, talvez pelas fortes linhas melódicas conferidas pela guitarra. As ervas, essas, são daninhas e referem-se às suas antigas paixões e às memórias que deixaram (“I miss all of my exes, they’re the only ones that know me”).

“Savages”, ópera apocalíptica acerca da condição humana reduzida ao seu estado mais animalesco, é facilmente o ponto alto de Froot. A produção oscila entre a synthpop austera dos Eurythmics e o apelo pop fantasmagórico de “Thriller”, enquanto os versos preenchem-se de interrogações (“Were we born to abuse, shoot a gun and run/ or has something deep inside of us come undone?”) e afirmações sagazes (“I’m not afraid of God, I’m afraid of Man”). O disco termina no Olimpo, com as reflexões escatológicas de “Immortal” e o desejo de perdurar na morte aquilo que construímos em vida. Lá nas alturas, o pano cai.

O divã é bom conselheiro e a sessão de terapia faz maravilhas tanto pelo ouvinte como pela intérprete. Se esta não for a obra da sua aclamação, que seja ao menos o primeiro passo para a compreensão da figura sem ideias pré-concebidas ou erros de julgamento. Bling bling, nham nham.

texto por Gonçalo Dias

Django Django anunciados no Alive’15

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Quarteto londrino é a mais recente confirmação para a edição deste ano do festival do Passeio Marítimo de Algés.

A banda de “Waveforms” está de regresso ao NOS Alive, dois anos depois de terem marcado presença no evento lisboeta. O concerto terá lugar no Palco Heineken, a 9 de Julho, primeiro dia do festival que contará também com actuações de Muse, Alt-J, Flume, Jessie Ware ou Metronomy.

Em destaque deverão estar as canções de Born Under Saturn, sucessor do aclamado disco de estreia homónimo de 2012, que editam a 4 de Maio.

Os bilhetes podem ser adquiridos nos locais habituais ao preço de 55€ (bilhete único) e 109€ (passe geral).

Fica a recordação de “Hail Bop” para ajudar à decisão:

Texto por: Gonçalo Dias

“Short Movie”, de Laura Marling

Solidão, espiritualismo e a assertividade do costume fazem de Short Movie mais um declarado triunfo para Laura Marling.

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Aos 24 anos e com 4 discos aclamados no bolso, a cantautora britânica sentiu necessidade de fazer um interregno artístico para melhor compreender o que poderia vir a seguir na sua carreira. A paragem levou-a a fazer-se à estrada do deserto da Califórnia (vagueou por Los Angeles, Joshua Tree e pelo Mount Shasta) onde se distanciou de Laura, a intérprete, e se redescobriu enquanto pessoa.

Short Movie é então o recolher dos fragmentos deixados ao longo de uma jornada de autodescoberta em que chegou a duvidar se algum dia conseguiria voltar a fazer música. A típica crise do primeiro quarto século de vida, portanto.

O processo de gravação e composição trouxe visíveis mudanças na sonoridade de Laura Marling, que neste álbum acumula também a função de produtora executiva. Entre elas a mais evidente será o recurso à guitarra eléctrica (presente em “False Hope”, o primeiro single do registo, ou em “Don’t Let Me Bring You Down”) que convive pacificamente com o seu passado acústico mais próximo das tradições folk.

Existem também devaneios bluesy na serenata à lua de “Howl” (“howl at the moon, I’ll come find you”), aproximações ao cancioneiro de Joni Mitchell nas sofridas “How Can I” e “Walk Alone” e um certo espírito de faroeste em canções como “Warrior”, “Strange” ou “Gurdjieff’s Daughter”, estas últimas a receber as prestações vocais mais inspiradas do disco, num spoken-word digno de quem veste as calças e o chapéu de cowboy.

Liricamente, Laura Marling continua tão irrepreensível como dantes, com palavras firmes e duras a sair-lhe com a leveza de uma brisa primaveril. Há desolação passional em “Warrior (“I can’t be your horse anymore, you’re not the warrior I’ve been looking for”), desnorte interior em “False Hope” (“Is it still okay that I don’t know how to be at all?”), temores da jornada presentes em “Don’t Let Me Bring You Down” (“living here is a game I don’t know how to play”) e a redenção pessoal alcançada por via da espiritualidade em “Worship Me”, a bonita faixa de encerramento (“devote your life to peace and breathe”).

Cinco álbuns e um quarto de século de vida às costas e Laura Marling parece ter chegado ao cume da montanha: aquilo que já conquistou a nível criativo, é muito mais do que a grande maioria das suas congéneres poderão um dia vir a alcançar. “I’m just a horse with no name”, canta em “Warrior” – que essa liberdade criativa e de espírito a acompanhem por muitos anos mais.

Texto de: Gonçalo Dias.

“Feel”, de Bombay Bicycle Club

Se há canção que consegue descrever a essência dos BBC, será “Feel”. Primeiro porque tanto no papel como na tela é inspirada pelos sons, cheiros e cores da Índia, uma cultura que desde sempre carregaram às costas, ou não fosse Bombay (do português Bombaim) a cidade mais populosa daÍndia.

Depois porque integra o belíssimo So Long, See You Tomorrow, um dos meus álbuns favoritos do ano passado, e aquela que julgo ser a melhor obra do grupo britânico – expansiva, multidimensional e espirituosa. E esta canção deixa-me sempre muito feliz.

Texto de Gonçalo Dias.

Qual o próximo género musical que vai “explodir” internacionalmente?

Olhando para o panorama musical dos últimos anos, as movimentações estilísticas mais significativas têm sido ao nível da música de dança: a explosão da denominada vaga EDM, termo utilizado para definir a crescente diluição do dubstep, electro house, trap e afins na esfera pop, ou até mesmo os avanços feitos ao nível do garage, drum and bass, grime, 2-step e bass music na cena britânica e pelos quais nomes como Disclosure, AlunaGeorge, Dizzee Rascal, SBTRKT ou Burial são responsáveis.

Uma vez que me cativam muito mais os ventos que chegam de Inglaterra, passo a destacar alguns dos artistas que contribuíram para esse renovado fôlego da música de dança:

Katy B- “Katy on a Mission” (2010)

As senhoras primeiro. Kathleen Brien é a voz feminina a erguer-se da nova movida londrina dominada por homens. “Katy on a Mission” foi o memorável single de apresentação de On a Mission, a estreia de 2011 – autêntico caldeirão de especiarias electrónicas – e um dos primeiros esforços comercialmente bem-sucedidos do género. Can you hear the sub go boo-ooo-om?

Chase and Status- “Time” (2011)

Saul Milton e Will Kennard formam a mais afamada dupla britânica de drum and bass, que conheceu um pico de popularidade ao segundo álbum, No More Idols (2011), morada de “Time”, portento breakbeat com a subtileza vocal de Delilah, um prodígio que despontou em anos recentes num reduto onde a soul, o trip hop e a electrónica se cruzam. Menção honrosa para o vídeo que desperta consciências para uma realidade bem cruel.

Rudimental- “Baby” (2013)

Também o colectivo de Hackney teve a sua quota parte de aclamação da crítica e mediatismo com a sólida estreia, Home, editada há cerca de 2 anos. “Baby” é um bombom deep house via 90’s combinado com ornamentos soul da autoria de MNEK, jovem britânico de 20 anos que editará o seu primeiro EP no final deste mês. Já ela, Sinead Harnett, rouba corações.

Tourist- “Wait” (2014)

Termino com uma aposta pessoal para 2015, ainda em terras de sua majestade – trata-se de Tourist, ‘alias’ de William Phillips, promessa do future garage com provas já dadas em 3 EPs: o homónimo de 2012, Tonight (2013) e Patterns (2014). “Wait” abre caminho para o longa-duração de estreia esperado ainda este ano, sob a chancela da Method Records, editora fundada pelos Disclosure.

Texto por Gonçalo Dias

Disclosure de regresso ao NOS Alive

Disclosure

Os manos Lawrence fecham mais uma semana de confirmações pelas bandas do Passeio Marítimo de Algés, tendo concerto agendado para o último dia do festival.

A dupla electrónica britânica junta-se assim ao alinhamento de 11 de Julho no palco NOS, dia em que também se assistirão aos concertos de Sam Smith, Azealia Banks, Stromae e Counting Crows.

Esta será a terceira visita consecutiva de Guy e Howard Lawrence ao nosso país, depois de se terem estreado no Alive’13 e marcado presença na última edição do Super Bock Super Rock. Oportunidade para escutar uma vez mais as canções de Settle, registo de estreia de 2013 que deu novos mundos ao mundo da electrónica.

O último dia do evento contará também com actuações de Jesus and Mary Chain, Flight Facilities, Dead Combo e Sleaford Mods no Palco Heineken. Os bilhetes podem ser adquiridos ao preço de 55€ (bilhete diário) ou 109€ (passe geral).

Celebremos a boa-nova com “F For You”:

Texto por Gonçalo Dias

London Grammar- “Strong”

London-Grammar

Os London Grammar são a história de amor que nunca vivi com os The xx, com quem são frequentemente comparados. A base é a mesma: canções delicadas, guitarras melancólicas, versos tingidos de desolação sentimental e um gosto acentuado por arranjos minimalistas. A diferença reside na voz sublime de Hannah Reid, candidata a oitava maravilha do mundo.

“Strong”, retirada da belíssima estreia If You Wait (2013), é o tipo de canção que cristaliza tudo em seu redor para um melhor deleite auditivo, que nos guia pela força da interpretação e nos convence que não pode haver nada de mais belo e alado neste mundo ao longo dos seus 4 minutos de duração. Assim é a sua magia.

Texto por: Gonçalo Dias