O concerto que mais me marcou

A minha experiência em ver e ouvir música no seu estado mais puro, resume-se numa linha apenas: cinco festivais e dois concertos em salas, estes últimos vividos há pouquíssimos dias. Relativamente bom para quem tem pouco mais de duas décadas de vida, mas bastante paupérrimo para alguém que tem na música o seu oásis sagrado.

Mais facilmente construiria um texto acerca dos concertos que mais me arrependo de não ter ido, mas o desafio é mesmo escolher de entre os poucos o mais memorável. E a natureza da tarefa leva-me a pensar o que verdadeiramente constitui um concerto marcante. A ansiedade e expectativa que fomos acumulando? A perfeita organização da setlist? A entrega dos músicos? A atmosfera do recinto? A distância a que nos encontramos do palco? A companhia que levamos?

Chego à conclusão que todas elas importam e é assim que descubro o meu concerto de eleição: Alt-J no Alive 2013. Foi o meu primeiro ano no festival do Passeio Marítimo de Algés que se tornou inesquecível precisamente pela perfeita ordenação de todos esses parâmetros. Tinham-se passado poucos meses da sua vitória do Mercury Prize pelo excelente An Awesome Wave (2012) e todos os que ali se encontravam estavam preparados para comungar ao som da banda do triângulo que não tinha como falhar. A noite era deles.

O som fazia tremer a terra e as paredes da tenda Heineken, a rebentar pelas costuras, mas a transbordar de magia com a atmosfera que ali se vivia. Os corpos dançavam ao sabor das melodias hipnóticas, demasiado embrenhados num transe profundo que não dava azo a inibições ou arrependimentos. As vozes clamavam com fervor aqueles cânticos que encerram em si mantras e prosas antigas de civilizações perdidas – vá, não tanto mas é o que parece  – que nos fazem sentir membros honorários de uma qualquer sociedade secreta. Um sonho dentro do próprio sonho.

O trio de Leeds tem regresso marcado para este mesmo festival a 9 de Julho próximo, mas dificilmente conseguirão superar a visita inaugural: agora são um trio; An Awesome Wave terá que partilhar espaço com o menos inspirado This Is All Yours; provavelmente serão promovidos para o palco de maiores dimensões e nem a expectativa e a companhia serão as mesmas.

O tempo não o apagará da minha memória, mas certamente que o futuro me trará outros tantos concertos de figurarem nesse honroso panteão.

Texto por Gonçalo Dias.