Scott Matthew bipolar no Cinema São Jorge

Scott Matthew bipolar no Cinema São Jorge

“I’m so happy to be here”. Depois de “Effigy”, primeira canção do alinhamento, Scott Matthew troca a escuridão das suas composições pela alegria, algo que vai ser frequente nas pausas deste concerto.

Portugal é um sítio importante para a carreira do cantor e ele faz questão de nos ir relembrando disso. O australiano diz-nos que o seu novo álbum, This Here Defeat, responsável por ocupar grande parte do alinhamento, foi gravado em Lisboa. Rodrigo Leão, com quem colaborou, tem direito a algumas palavras de apreço e é mais uma ponte que se faz entre Scott Matthew e Portugal.

O músico tem nas suas canções uma maneira de expurgar todos os seus demónios. “Ode” é apresentada como uma homenagem ao seu falecido avô e é um dos momentos mais emocionais da noite. Os músicos que o acompanham são exemplares a servir a voz rouca do australiano e fazem com que as músicas ganhem outra aura. O ambiente em volta das canções é sempre de cortar a respiração e o artista conta-nos que o novo álbum esteve para nem acontecer devido à repetição da temática: o fim de uma relação.

Um dos momentos estranhos, como diz o próprio, é “Bittersweet”, a única canção alegre dum longo reportório. O seu sentido de humor é bastante aguçado e atira-nos para uma espécie de bipolaridade emocional que nos acompanha durante todo o concerto. Essas mudanças de humor só têm paralelo nas covers tocadas. A primeira é “I Wanna Dance With Somebody”, original de Whitney Houston. Saltamos para “Anarchy in the U.K”, célebre canção dos Sex Pistols. As transformações que faz nas músicas são tantas que nos faz acreditar que o material, que é tão diferente entre si, é todo composto por ele.

O amor é o assunto que atravessa toda a sua discografia. Bem, é mais o desamor. Fala de como já teve o coração partido – várias vezes – e diz que espera que seja esta a noite em que possa encontrar o amor. As reacções são positivas e ouve-se um “We love you, Scott”. É curioso que o público, que não encheu o Cinema São Jorge, seja composto por vários casais, já que a sua música é maioritariamente composta por letras sobre corações partidos.

O concerto chega ao fim e as palmas ecoam durante alguns minutos. O músico australiano volta só com o guitarrista e traz-nos mais uma cover, “Into My Arms”, escrita por Nick Cave. Mais uma despedida e o São Jorge tem um público de pé à espera de mais. Scott Matthew volta sozinho para uma despedida emocionada. Lisboa deixa marcas no artista e o contrário também parece ser verdade.

Texto por:Alexandre Ribeiro

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King Krule – “6 Feet Beneath the Moon”

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Archy Marshall, mais conhecido como King Krule, é uma das personagens ímpares que se vai erguendo no meio da confusão. Em 2013 lançou o álbum “6 Feet Beneath the Moon” com o selo das editoras XL Recordings e True Panther Sounds.

O jovem britânico é a banda sonora dos becos escuros. A sua voz “bêbada” e rouca leva-nos a passeio como se tivéssemos acabado de sair dum pub. É difícil classificar o que Archy faz. A mistura de géneros passa pelo trip hop, jazz, punk, dub, etc. Simplificando, é um miúdo de 20 anos a dar-nos belas canções de amor.

Ainda não se sabe se o britânico está a trabalhar no próximo lançamento e em 2014 só nos deixou uma colaboração com Ratking – colectivo hip hop de Nova Iorque. Um nome a seguir.

Texto por: Alexandre Ribeiro

D’Angelo – The Charade

A espera de 14 anos valeu a pena. “Black Messiah” é o sucessor da obra-prima “Voodoo” e traz consigo o funk, soul e rock que servem na perfeição as letras interventivas de D’Angelo.

The Charade é a terceira música do novo registo e uma das minhas favoritas. Questlove na bateria e Pino Palladino no baixo guiam a musculada parte rítmica. As palavras são incisivas e fazem alusão ao passado de segregação social.

Um passado que nunca pareceu tão presente e levou ao lançamento deste álbum. D’Angelo saiu da sombra para mostrar que ainda tem algo a dizer. Bem-vindo de volta.

Texto por: Alexandre Ribeiro

John Cale – Ghost Story

O aparecimento de John Cale no meu radar vem no seguimento da morte do Lou Reed. Os dois foram parceiros nos Velvet Underground, mas Cale desenvolveu uma carreira a solo bastante interessante.

A música que escolhi chama-se Ghost Story e faz parte do seu primeiro álbum Vintage Violence, lançado em 1970.

Texto: Alexandre Ribeiro

Boiler Room em Lisboa

O evento organizado pela Red Bull Music Academy está de volta à capital portuguesa. A terceira edição é a mais ousada e junta vários artistas como Buraka Som Sistema, Mariza, Batida ou Paus. A emissão vai-se caracterizar pela tentativa de explorar a enorme diversidade que tem apresentado no panorama musical português.

redullTrês salas diferentes e três maneiras diferentes de ouvir/ver Portugal através da música.

Texto por Alexandre Ribeiro

“Xen” de Arca

Alejandro Ghersi, mais conhecido como Arca, é um venezuelano que ascendeu do submundo dos produtores para mostrar trabalho em nome próprio com o álbum de estreia “Xen”. Colaborou com Kanye West em “Yeezus” e com FKA twigs em “EP2” e “LP1”. Estes dois álbuns aproximam-se na negritude e na confusão que é transmitida pelas camadas obscuras que são sobrepostas. Na era do digital, Arca junta os destroços e fragmentos para apresentar a sua visão dos acontecimentos.

 

Texto por: Alexandre Ribeiro