Entrevista a Francis Dale a propósito do seu novo EP

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Criado por Diogo Ribeiro, Francis Dale é o nome de um projeto feito em Portugal, mas com os olhos postos no mundo. A necessidade de Diogo em compor músicas com total liberdade e sem qualquer espécie de restrições, terá sido a razão principal para a sua criação.

Francis Dale lança agora o seu segundo EP de originais, homónimo, que tal como aconteceu no primeiro registo, o EP Lost In Finite de 2014, é composto na integra por originais de sua autoria. Isto apesar de já ter feito versões de músicas de outros, com um sucesso considerável no Youtube.

Este seu segundo EP é distribuído apenas em formato digital, tal como já acontecera no primeiro, mas desta vez há a opção do formato físico, limitado a 50 exemplares numerados e assinados, a pensar nos colecionadores e concebido pelo artista plástico João Pedro Fonseca.

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O Notas à Solta conversou com Francis Dale e ficou a saber mais sobre este músico lisboeta.

Acabaste de lançar o teu segundo EP, mas muitos ainda não te conhecem. Fala-nos um pouco do que tem sido a tua carreira e o teu trabalho.

O meu trabalho passa por tentar acalmar as minhas dúvidas e inquietações. O que na maior parte do tempo passa por criar e modelar sons. É esse o meu trabalho.

A minha, ainda breve, carreira resume-se a isso. Dois registos de curta duração que debatem a finitude e o constrangimento.

Apresentaste-te fazendo versões de músicas de outros acompanhado de uma guitarra, mas isso depois não se refletiu nos temas compostos por ti. Porque é a guitarra não está mais presente nos dois EPs?

Isso é algo com que me debato todos os dias. Não necessariamente aplicado à guitarra, mas ao lugar das coisas no geral. Tudo tem o seu espaço. O meu desígnio é descobri-lo. Até agora tenho sentido que o espaço que a guitarra deve ter neste projecto é apenas este. Nem mais. Nem menos.

Para quando o lançamento de um LP? Ou consideras que esse formato já está desatualizado?

Em 2016 lançarei um LP. Espero poder revelar mais sobre isso em breve.

O que te parece esta nova forma de se fazer música, em que a lógica de banda parece ter ficado para trás e se fazem projetos com uma ou duas pessoas, como é o teu caso?

Pessoalmente, creio não estar numa posição de afirmar que existe uma doutrina dominante, apenas por me faltar distanciamento histórico e razão.

Existe, no entanto, um lado romântico em mim que acredita que as grandes bandas, os grandes discos e os grandes livros continuam a ter validade. Que continua a ser possível a existência, em 2015, de projectos que possam alcançar uma magnitude histórica de uns Pink Floyd. No entanto acredito que vivemos num tempo em que a individualização é a regra. Seja ela artística ou existencial.

Não acredito que haja, necessariamente, uma supremacia entre a banda ou o indivíduo. Há, possivelmente, uma democratização e emancipação, talvez muito graças à tecnologia, que permite a co-existência de projectos colectivos e individuais, ou a existência de bandas e DJ’s como headliners de festivais.

Como abordas a questão de atualmente muita da música que se faz ser feita por computadores e não por instrumentos tradicionais?

Com tranquilidade. Nunca a máquina substituirá o humano.

Como serão no futuro os teus espetáculos ao vivo?

Gostava que pudessem reflectir esta busca incessante por um caminho desconhecido neste vazio. Imenso.

Texto por João Catarino

Talento é de família: netos e filho do cantor Gilberto Gil formam banda com amigos

A história da banda brasileira Sinara começa numa amizade. Luthuli Ayodele e Francisco Gil são amigos desde pequenos e a música sela esse laço que já existe há anos. O pai de Luthuli é compositor e produtor cultural e trabalhou com o avô de Francisco. Assim, entre músicas e ensaios, fez-se a amizade entre os dois. Na entrevista com a repórter MAYRA RUSSO, ambos falam sobre a carreira da banda que formaram, os desafios para um grupo ainda iniciante e dão detalhes das canções que estão gravando para o primeiro EP deles.

Fotografia de Peter Wrede.

Fotografia de Peter Wrede.

A Sinara ainda está dando os primeiros passos, mas o sobrenome de peso dos guitarristas Francisco e João Gil e do baterista José Gil chamam a atenção dos média. É verdade, os meninos têm como patriarca da família um dos mestres da música popular brasileira que leva o som feito no Brasil para o mundo. Gilberto Gil é pai de José e avô de Francisco e João. Mais ainda! Francisco é filho da cantora Preta Gil com o ator Otávio Müller. A arte já está no sangue. Para completar a banda, além dos descendentes de Gil e do vocalista Luthuli, tem também o tecladista Léo Israel (filho do ex-integrante do Kid Abelha, George Israel) e o baixista Magno Brito.

A conexão do Gil com os meninos da Sinara é praticada à exaustão pelos média, mas Francisco garante que estão tentando trilhar o caminho com os próprios pés. “Sempre tem minha mãe ou as pessoas do média que querem estar aí ajudando a gente, mas a gente procura evitar. Queremos seguir um caminho mais natural das coisas, o nosso caminho”, afirma o filho de Preta. E eles têm conseguido provar que têm talento. No festival Rider Weekends, que aconteceu no Rio de Janeiro, em Fevereiro, os seis rapazes atraíram mais de 700 pessoas para ouvir suas faixas autorais, como “Floresta” e “Psicologia”.

Luthuli é o compositor oficial do grupo, mas também divide as letras com a malta. “Tentamos nos encontrar para compor junto. Eu faço a letra e chamo o Zé (José Gil), o Fran (Francisco Gil), o Magno para me ajudarem. Então acaba que tudo é nosso. Todo mundo tem um ingrediente no nosso bolo”, explica o vocalista. A sonoridade da Sinara não tem uma delimitação. Os meninos juntam as suas raízes, que vão desde MPB e bossa nova até soul e rock, e criam sem rótulos. “A gente não quer rotular. Eu quero ver o que as pessoas vão dizer. Uma hora elas chegam em alguma conclusão aí”, argumenta Francisco.

Ter uma base cultural tão eclética se reflete na musicalidade do primeiro EP (ainda sem previsão de lançamento). O reggae, rock e rap são géneros que, com certeza, vão ser encontrados nas três músicas que a Sinara está gravando em estúdio. “Antes que Eu Morra”, “Marchando” e “Favela” são as faixas que vão compor o EP e são bem diferentes uma da outra, de acordo com Luthuli. Além disso, também estão em fase de filmagem do primeiro videoclip. “Floresta” está sendo filmada no Rio de Janeiro e explora o lado ator dos músicos. “Está sendo diferente também porque a gente não está acostumado a fazer isso. Por incrível que pareça o resultado está sendo muito bom. Eu não sabia nem que eu sabia atuar tão bem”, brinca Luthuli.

Mesmo sem ter datas programadas de quando vai ser o lançamento do EP e do vídeo de “Floresta”, a Sinara tem planos de produzir alguns poucos CDs para serem vendidos nos concertos, mas vão também disponibilizá-lo gratuitamente na internet. Para ler na íntegra entrevista clique aqui.

 

Texto por: Mayra Russo.

“O rap foi uma parada muito importante na minha vida em relação à questão racial”, explica Rael em entrevista

O rapper brasileiro Rael tem dois álbuns e um EP, lançado recentemente, em sua carreira. Com os dias contados para terminar a digressão de “Ainda Bem que Segui as Batidas do Meu Coração” (2013), ele já tem marcada a data para iniciar a tour do EP “Diversoficando”, editado no fim de 2014. A repórter MAYRA RUSSO conversa via Skype com o cantor, músico e compositor, que fala sobre preconceito, a cultura hip hop e as novidades produzidas por ele.

Conhecido pela mistura de géneros musicais brasileiros e reggae com o rap, ele acaba por abranger um grande público através das suas canções. “Acho que essa mistura é um convite para outras pessoas e até as mais velhas também a começarem a ouvir rap”, revela Rael em entrevista. Embora essa não seja a receita principal para fazer com que o hip hop chegue ao topo das paradas, é uma maneira de dialogar com um público mais abrangente.

“Ser Feliz”, “O Hip Hop é Foda Parte 2”, “Hoje é Dia de Ver”, “Pré-Conceito” e “Envolvidão” são as faixas de “Diversoficando”, e foram todas disponibilizadas para download gratuito e pode encontrá-las também nos muros do Rio de Janeiro e de São Paulo. A malta conecta os fones em paredes com a logo do EP, e podem ouvi-lo de borla. Para Rael já não vale a pena lutar contra o download ilegal e gratuito, é preciso unir-se à essa ideia e fazê-la de maneira a chamar mais gente possível para ouvir as suas canções. “As pessoas que consomem já estão acostumadas ao artista disponibilizar de graça. E as pessoas que baixam isso de graça são as que vão no show, que também compram o físico às vezes”. O rapper acredita tanto nesse modo de distribuição que desistiu de assinar o seu último EP com uma gravadora justamente porque não queriam deixá-lo colocar para download gratuito.

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Imagem: Divulgação/ Facebook Rael.

Vindo da favela paulistana (o que ou quem é da cidade de São Paulo), as temáticas rondam assuntos que têm gerado furor entre os jovens que vivem na periferia, como o preconceito e a importância exagerada que tem-se dado aos bens materiais. “Esses dias eu fui numa festinha que teve na escola do meu filho e vi que eu era o único negro lá. Eu me senti incomodado, saca? Mas as pessoas estavam tranquilas. Eu vi que era uma ‘encanação’ minha. Devido a essa ‘chaga’ que fica de tanto você ter passado por situações de preconceito. Mas eu fico vendo que rola esse lance da classe mesmo”, responde ao ser perguntado se acredita que o preconceito no Brasil ainda é racial ou se é mais social. Emenda ainda que Os Racionais o ajudaram muito na afirmação da identidade e a andar de cabeça erguida. “Antigamente as pessoas falavam: ‘ah, entra água no seu cabelo?’. E eu não sabia o que dizer, não tinha resposta. Aí Os Racionais vieram com um discurso muito bacana que me deu autoestima e eu comecei a bater de frente com as pessoas e a não ligar muito para isso, para quem era muito idiota”, assume o brasileiro, que aprendeu com o rap a enfrentar o preconceito racial numa época que esse assunto era tabu até dentro de casa e nas escolas.

“Envolvidão” é a única faixa romântica e é também a mais comercial, sendo a que alcançou mais visualizações no YouTube. Mas Rael acredita que há uma divisão na sociedade. Existem pessoas que se importam com o que acontece na periferia e gostam mais de canções como “Pré-Conceito” e outras que pensam apenas na “possibilidade de agregar valor e dar uma expansão só para elas mesmas”. Por ter o tema principal o amor, muitas mulheres acabam se identificando mais com essa faixa do que com as outras quatro.

Sendo o hip hop uma cena que enfatiza a realidade e coloquialidade, o brasileiro revela a importância do género no seu crescimento pessoal e artístico. “O rap foi uma parada muito importante na minha vida em relação à questão racial, que hoje em dia eu sei lidar com isso. Não me afeta. Quem tem esse tipo de pensamento, de comportamento eu tenho pena na verdade. Acho que é uma ignorância tremenda. Os moleques da quebrada estão com uma autoestima maior agora.”

A preocupação maior do Rael é passar conselhos para os mais jovens, assim como acredita ter sido aconselhado através das músicas d’Os Racionais e do rapper paulistano Xis. “Acho que é uma responsabilidade que a gente tem, sim, de tentar abrir os olhos das pessoas, de fazer elas enxergarem que elas são maiores do que elas acham que são, que não é só porque você tem um sistema de ida e vinda, de ir trabalhar, pegar autocarro cheio e voltar, que a sua vida é só isso. Têm muitas outras coisas para se conquistar além do dinheiro, que são coisas pessoais, internas.” E completa com a visão que tem dos jovens hoje em dia. “A molecada está se perdendo muito. Eles não se acharam ainda como pessoa, como ‘o que eu vou ser? O que eu vou buscar?’. Não tem essa ambição saudável. Primeiro ele quer um ténis foda, uma mota foda. Eu acredito que a gente possa consumir. Eu quero ter coisas também. Mas essas coisas não podem falar por mim, não podem vir primeiro e nem serem o ponto vital da minha vida. Então eu tento pregar isso para a molecada.”

Durante a conversa (para ler a entrevista completa, clique aqui), Rael admite ter vontade de trazer a digressão de “Diversoficando” para a Europa e anuncia o dia 12 de Março para o início da mesma em São Paulo, no Brasil.

A vida de músico é “… uma actividade que se ama muito e da qual não conseguimos abdicar porque há uma paixão que nos cega”

Raquel César é cantora e dona de uma excelente voz. A sua carreira tem sido marcada por projetos de covers como os GIG, RadioLusa e Crush. Todos eles percorreram os bares de Portugal a fazer algo que os seus membros adoram… estar em cima de um palco a tocar canções que lhes marcaram de alguma forma. João Catarino entrevistou Raquel César para saber mais pormenores da sua carreira e do que é ser músico por cá.

Lembras-te da primeira vez que estiveste em cima de um palco… estavas nervosa?

Lembro-me perfeitamente. Estive nervosa antes do concerto e nos primeiros 15 minutos, depois passou tudo.

Depois de teres passado por três bandas de covers, o que tens feito mais recentemente em termos musicais e que objetivos tens para a tua carreira?

Continuo a fazer covers por teimosia, actualmente em duo mas com novidades a cozinhar.

Nem se pode chamar “carreira” à vida de músico no nosso país, nos tempos que correm. Não há progressão nem a conquista de um lugar. É uma actividade que se ama muito e da qual não conseguimos abdicar porque há uma paixão que nos cega.

De toda a maneira, quando decidi que era isto que tinha de fazer, a ideia sempre foi oferecer música ao mundo, por isso continuo a compor devagarinho em casa, sem grandes objectivos, só porque me faz falta para respirar.

Como é a vida de uma cantora de bares em Portugal… quais são as maiores dificuldades?

Cantoras de bares, estritas, que não façam mais nada da vida, são animais em vias de extinção.

Por muito que se batalhe, não há mercado, não há cultura, não há dinheiro, não há respeito. Parece que tudo se opõe a que vivamos do nosso ofício. Todos os dias temos a sensação de estar a começar de novo, um dia após o outro.

A “concorrência desleal”, se é que pode ser assim chamada, abala-nos os alicerces porque a maioria das pessoas não sabem diferenciar o trigo do joio e entendem pouco do seu próprio negócio a ponto de preferirem mão-de-obra barata em detrimento da qualidade. É muito fácil uma banda de bons músicos ser preterida em função de um grupo de miúdos que se vendem por uma cerveja e enchem o bar com os colegas da faculdade e com a família. Como o público também não costuma ser muito exigente…aí está uma combinação assassina para quem quer fazer disto uma profissão. Porque isso vai fazer com que alguns músicos desesperados baixem também os seus preços e depois temos músicos com qualidade também a venderem-se por pouco e quando damos por nós já não há como sair do ciclo vicioso.

Mas o pior de todos os cancros, ainda me parece que seja a Segurança Social. Somos assaltados todos os meses a troco de nada. É uma fatia absurda do pouco que amealhamos que vai para um poço sem fundo, de onde não recebemos nenhum benefício.

Que música ouves em casa e quais as principais referências naquilo que fazes enquanto cantora?

Ouço muita coisa, ouço rock, blues…ouço coisas que nem sei bem catalogar!

Tenho duas “musas” que têm sido preponderantes no meu crescimento: Tori Amos e Fiona Apple.

Mais recentemente apaixonei-me irremediavelmente por Pain of Salvation e Joe Bonamassa, mas a lista não acaba!

Onde te podemos ouvir a cantar nos próximos tempos?

Em Grândola, no Sonia’s Kaffe (dia 7 de Março) e possivelmente no Rock da Bica em Almada.

Texto por João Catarino

Entrevista Banda do Mar‏

Às vésperas do primeiro concerto em Lisboa, Banda do Mar conversa com o Notas à Solta.

Faltando poucos dias para o concerto de estreia da digressão da Banda do Mar em Portugal (com ingressos esgotados nos dois dias de apresentação em Lisboa), a vocalista Mallu Magalhães e o baterista Fred Ferreira conversam com MAYRA RUSSO sobre o futuro do grupo e o sucesso após o lançamento do primeiro álbum. Segurem o fôlego e podem soltar o sorriso porque Mallu e Fred afirmam que a Banda do Mar veio para ficar.

Existe aquele lema “a união faz a força”, e no vosso caso, com certeza faz. Cada um separadamente já era reconhecido pelo seu trabalho, mas unidos vocês conquistaram muita gente em pouquíssimo tempo. Como conseguiram ter tanto sucesso logo no primeiro álbum da banda?
MALLU MAGALHÃES – (pensativa) Puxa, acho que muita dedicação. Estamos o tempo inteiro pensando em tudo o que envolve a banda, desde os cartazes até os nossos parceiros, quem vai tocar no show, o músico, o substituto do músico, técnico de som, os vídeos, as fotos, o facebook… A gente pensa na banda o dia inteiro. Acho que essa dedicação é um trabalho diário, intenso e que dá frutos. A nossa parte é fazer muita divulgação, dar entrevistas… Tudo isso é muito importante. Acho que tudo isso contribuiu para a gente conseguir tanta repercussão. E lógico que também o conteúdo que, pessoalmente, eu acho muito legal (risos). É um grande disco, e isso conta também. Se o pessoal gosta é porque talvez seja mesmo bom (risos).

No Brasil, a Banda do Mar foi destaque em diversas publicações, inclusive as mais aclamadas no país, como o Estadão e a Super Interessante. Aqui, esteve nos destaques de 2014 da Blitz e teve muita procura dos fãs portugueses em relação ao vosso concerto. Foi um CD pensado para ter uma sonoridade de destaque em ambos os países ou quando perceberam a música de vocês já tinha alcançado uma repercussão imensa?
MM – Eu acho que não foi tão pensado, né, Fredinho?
FRED FERREIRA – O que queríamos fazer era o melhor possível. O fato de cantarmos em português já nos coloca a comunicar com Portugal e Brasil, mas nunca falamos sobre isso. É natural que por estarmos aqui a morar e por termos uma ligação com o Brasil comunicarmos mais com os dois lugares. O nosso objetivo era poder tocar em ambos os países nessa primeira fase da nossa digressão.
MM – O nosso objetivo sempre foi esse mesmo. Pensávamos mais em ter um bom resultado. Queríamos ter uma boa árvore e não só colher o fruto.

Essa árvore que vocês fizeram tem influências tanto do Brasil quanto daqui?
MM – Ah, acho que bastante. Nós três somos bem ecléticos. O Fredinho então…

Pois, aqui em Portugal ele trabalha com diversos artistas. Foi dessas bandas que o Fred participou que vocês trouxeram alguma coisa para compor a Banda do Mar?
FF – A Banda do Mar, antes de mais nada, foi inspirada na nossa amizade. É uma coisa diferente porque já somos amigos há muitos anos e a vinda deles para cá (Mallu e Marcelo moram em Lisboa atualmente) resultou em formarmos uma banda porque somos músicos. Mas também surgiu ideia de fazer outras coisas, tipo uma padaria. Nós queríamos é estar juntos. Se for a tocar, que é o que gostamos mais, melhor.

Que legal! A amizade de vocês vai para além da música. Vai para todas as áreas.
Ambos – Muitas!
MM – Aliás, na música, tocar mesmo é 10% do tempo, talvez menos. A maioria é espera…
FF – Check-in aqui, raio-x acolá…
MM – Então as suas companhias são fundamentais. Para gente, estar entre nós três, é demais!
FF – É ótimo! Eles riem-se das minhas piadas.
MM – (risos) Agora está precisando renovar o repertório. Já está repetindo as piadas. (risos)

Músicos e cantores, mais até os portugueses do que os brasileiros, conseguem ter dois ou mais projetos paralelamente na carreira deles. É esse o futuro do cenário musical?
FF – Depende. Eu acho que sim se utilizares o meu caso, por exemplo. Eu consigo trabalhar com mais pessoas porque também o meu instrumento permite. Acho que se for um cantor é diferente, não é algo que dê para estar a aparecer muito. Agora, se a Mallu for cantora na Banda do Mar e no projeto a solo e baterista numa banda, aí já acho bom. Até curtia ver uma banda com a Mallu a tocar bateria.
MM – Ah, Fred! (risos) Só você mesmo.

Mallu, você e o Marcelo estão morando aqui, mas têm passado muito tempo no Brasil por causa da digressão. Já tiveram tempo de conhecer algum artista, alguma música feita aqui?
MM – Aqui a gente convive com a cena musical portuguesa através do Fred e dos amigos que a gente fez, que são os amigos do Fred (risos). Uma vez conhecendo a pessoa a gente passa a acompanhar o trabalho também. Me identifico muito com o Nick Nicotine, a minha professora de canto, a Ana Cláudia, que acabou de lançar um disco legal caramba… O próprio Orelha Negra, a banda do Fred, sempre ouvi para correr.

Tendo o Fred, que já trabalhou com muitos músicos portugueses, vocês pensaram em trazer algum deles para uma participação especial nos concertos que farão aqui?
FF – Acho que a participação especial quase que é mais só o Sebastião (filho mais velho do baterista), que já tocou connosco lá no Circo Voador (casa de eventos no Rio de Janeiro). Isso é na brincadeira. Por acaso nunca falámos nisso. Até era uma coisa que nós gostávamos. Acho que para as coisas serem bonitas nós temos que ser surpreendidos e têm que acontecer naturalmente. É que nós não sabemos mesmo (se terão participações especiais). Até podemos, de repente, encontrar o Rodrigo Amarante a irmos para o show e convidá-lo para tocar connosco. Ou o António Zambujo, o Miguel Araújo… Gostávamos de ter um dia alguém que vá lá cantar connosco.

Os fãs portugueses podem esperar mais atuações da Banda do Mar em Portugal ainda este ano, além dessas datas marcadas?
FF – Claro, os portugueses podem esperar e os brasileiros também. Ainda vamos voltar para lá.
MM – Ainda tem muito show esse ano. Vai ter mais do que o ano passado. A digressão em Portugal vai até o final do verão e a do Brasil termina em abril.
FF – Tem os festivais de verão daqui também. Quer dizer, os festivais não sabemos, mas esperamos que sim.

Banda do mar (1)Texto por Mayra Russo.

“Echoes” – Desde 2010 a prestar tributo aos Pink Floyd

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As bandas tributo são um fenómeno com alguns anos em Portugal. Foi na década passada que começaram a aparecer, a partir de certa altura em grande número, diversos projetos que têm como objetivo homenagear a banda, ou cantor, da qual são fãs. Temos bandas tributo aos U2, aos Bon Jovi, ao Bryan Adams, aos Xutos… e a muitos outros.

Hoje, é com Nuno Cristino, fundador e baixista dos “Echoes – Tributo a Pink Floyd” (http://echoestributoapinkfloyd.blogspot.pt), que vamos falar.

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Fale do vosso projeto, criado em 2010, como tem sido o percurso até hoje?

Tem sido um percurso de implementação do nome Echoes no meio musical, sempre a ganhar cada vez mais notoriedade no mesmo. Desde 2010 que o nome Echoes passou a ser uma referência de tributo a Pink Floyd, com concertos realizados em Lisboa, Porto, Açores, Elvas, Anadia, Sines, Castanheira de Pera, Benavente, Salvaterra de Magos, Cascais, Oeiras, Estoril, Montijo, Azeitão, Moita, entre outros, desde concertos em Bares, Sociedades recreativas, Motoclubes, Concentrações Motard, etc… com o culminar a presença no lançamento oficial do novo álbum dos Pink Floyd na FNAC.

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A vossa banda é mais de covers dos Pink Floyd ou pretende ser o mais fiel possível ao original?

Pretendemos e procuramos ser o mais fiel ao original, sendo que tocar Pink Floyd exige muito trabalho, dedicação e ter uma parte técnica / musical bem apurada.

Podemos dividir a carreira da banda inglesa em três fases, uma primeira com Syd Barrett mais psicadélica e já numa lógica de rock progressivo, uma segunda dominada por Roger Waters em que o rock progressivo foi acentuado e a sua música torna-se conceptual, e a terceira de David Gilmour em que as músicas resultam de sessões de improviso. Para si, qual é melhor fase e qual delas interpretam mais ao vivo?

Nós apreciamos toda a carreira dos Pink Floyd, em todas as fases há grandes álbuns, grandes temas e coisas muito boas. Tentamos abranger ao máximo toda a carreira da banda no nosso repertório, mas a fase de que tocamos mais temas é a fase principal dos Pink Floyd, com o Roger Waters na banda.

O que diz de “The Endless River”, o mais recente trabalho dos Pink Floyd? Pensam tocar alguma coisa dele no futuro?

É um bom álbum para o que seriam temas que ficaram de fora do álbum “The Division Bell”, apesar disso chegou a 1º lugar em inúmeros países. É basicamente uma homenagem ao teclista Richard Wright. Temos o objetivo de tocar um dos temas do novo álbum em 2015.

Quais são as maiores dificuldades que uma banda tributo encontra para poder colocar em prática o seu projeto?

Basicamente o mercado em crise e a saturação do meio musical com imensas bandas, em que a maior parte não tem qualidade e que tocam por valores muito baixos, prejudicando depois quem faz um trabalho sério e de qualidade. Depois, temos a cultura musical que em Portugal é muito pobre e onde os empresários procuram o lucro fácil em vez da qualidade musical.

Há alguma previsão do que será o ano de 2015 para os “Echoes”?

Esperamos um ano difícil, mas em que continuaremos a prestar homenagem aos Pink Floyd, com a mesma qualidade e paixão, que fazemos desde 2010.

echoes4Texto por João Catarino

Buraka Som Sistema faz o último concerto do ano

Buraka Som Sistema - Casino Lisboa

Em plena segunda-feira, 15, o Casino Lisboa, por volta das 22h, estava entupido de gente. Já não havia mais espaço para sequer tentar passar pelo espaço Arena Live. Às 22h30, era a hora do Buraka Som Sistema entrar em palco e, pelos vistos, ninguém queria perder o último concerto do grupo em 2014. À tarde, na preparação para o que viria a acontecer à noite, MAYRA RUSSO foi ao casino após o ensaio dos Buraka e conversou com o baterista RIOT.

A primeira vez que se apresentaram foi no Clube Mercado, em 2006. Daqui a menos de dois anos farão uma década de Buraka. Têm algum projeto planeado para comemorar esta data?

A vida dos Buraka Som Sistema é sempre muito movimentada. Não só pelo grupo, mas também pelos nossos projetos a solo. Dá-nos mais trabalho pensarmos com tanto tempo de antecedência. Não conseguimos. Mas temos noção que vem aí e que temos que festejar em grande.

A Buraka saiu em um dos jornais mais aclamados do mundo, o New York Times. Como tem sido o feedback dos americanos em relação à vossa música?

Contactámos com o público americano já faz uns anitos. Fomos ao Coachella, a um monte de festivais, não só nos Estados Unidos como também no Canadá. A reação americana, tanto nos EUA quanto no Canadá, é sempre boa. Mas penso que eles conhecem um ou dois sons, e enquanto banda, estão a conhecer a Buraka Som Sistema, agora, um bocadinho melhor.

Ao ver pela segunda vez o vosso documentário reparei que movimentos novos são criados a cada hit para dar um diferencial entre uma nova música e as tantas outras do kuduro. Claramente o kuduro e a dança andam lado a lado. Qual a coreografia, o movimento de uma música de vocês que mais pegou, que o público nos concertos queria imitar?

Olha, não sei. Isso foi, claramente, uma coisa que herdámos do kuduro. Não sou a pessoa indicada para responder isso. Se calhar, a Blaya é capaz de perceber melhor. Eu estou muito preocupado a tocar bateria lá atrás. (risos) Há um movimento básico do dombolo, aquela dança das perninhas do kuduro, acho que é esse o que as pessoas mais tentam fazer.

Outro dia estava a ler um artigo no site da Enchufada que falava sobre o Movimento “Tropical Bass”. Como explicariam esse movimento para quem ainda não o conhece?

Para perceberem essa Global Dance Music ou Tropical Bass Music acho que é tentarem perceber que os jovens de hoje em dia, que fazem música em diferentes partes do mundo, como África, Índia, (pensativo) Nova Iorque, Rio de Janeiro, nos subúrbios, na cidade, em todo lado, todos os jovens que fazem música de dança com influências de seu próprio país acabam por inventar um som novo. Não é bem “world music”, não é tocar conguinhas debaixo de um coqueiro ou uma coisa assim do género, como os avós, e é por isso que as pessoas não lhe chamam de “world music”. Não gostam de comparação. É apenas por isso. Não é que a comparação tenha algo de mal ou que o “world music” tenha algo de mal. É só uma questão de tentar que seja explícito para as pessoas que não vão ouvir o semba ou outro género, vão ouvir uma influência nova, uma mistura de eletrónica com aquilo que eles sempre cresceram, o kuduro. Então Tropical Bass Music acaba por ser com influências desses, nesse caso, sítios mais tropicais, tipo África, Brasil e outros países e continentes do género, que englobem influências do seu país, mas façam música eletrónica. Acaba por ser isso.

Então tem sempre que englobar a música eletrónica?

(pensativo) Ainda não houve ninguém que quebrasse esse estigma, mas se aparecer e funcionar toda a gente vai consumir. O que acontece é que há cada vez mais pessoas interessadas em eletrónica, é um fato. E esse movimento Tropical Bass Music tem se desenvolvido nas discotecas do mundo. Principalmente nas discotecas que tocam música do tipo Buraka, tipo o baile funk (festa típica do funk carioca), tipo tuki (género venezuelano). Não quer dizer que amanhã não apareça uma banda de Tropical Bass Music totalmente acústica.

Músicos e cantores têm tido dois ou mais projetos em pararelo, como é o caso do Fred Ferreira e de vocês mesmos. É para esse lado que a cena musical portuguesa está a caminhar?

Acredito que é para esse lado que a música no mundo está a caminhar. Para quem cresceu nos anos 80 e 90 como eu, em que tínhamos grandes mega bandas, que ainda algumas delas sobreviveram… Acho que isso não vai voltar a acontecer nunca mais. A internet abriu muitas portas e abalou muitos pilares. Trouxeste o exemplo do Fred Ferreira que é um músico que toca com “n” bandas em Portugal e depois ainda tem a Banda do Mar e tocava connosco. Ou seja, eu sou fã do Fred Ferreira. Não sou fã das bandas dele. Sou fã dos projetos que ele escolhe. Cada um que vem é sempre melhor que o outro ou diferente ou mais fresco, e apetece-me logo ouvir as músicas dele. Acho que no futuro, obviamente que vai ter bandas, mas acho que as pessoas vão começar a usar t-shirts de músicos específicos ao invés de bandas. O músico, hoje em dia, tem que ser multitasking.

Então acaba que os outros integrantes da banda, além do vocalista, também vão ter os seus momentos de estrela. Porque, numa banda, o vocalista sempre sobressai.

Sim, espero que isso seja uma tendência a morrer cada vez mais.

É muito injusto com os outros…

Sim, muito injusto. Mas é compreensível porque é a pessoa que está a utilizar o instrumento que toda a gente melhor entende, que é a voz. E acaba por ser quase impossível, é uma luta impossível. Mas acho que num mundo onde nós nos inventámos, na música eletrónica, muitas vezes o vocalista acaba por ser um pouco secundário para Dj set e tocar em discotecas. E aí é que é a vingança do músico, eu acho. (risos)

Em 2014 vocês fizeram uma digressão internacional, lançaram um álbum novo, ganharam um prémio como Melhor Actuação Ao Vivo de um artista nacional e hoje fazem o último concerto do ano. O que este ano representou para o Buraka Som Sistema?

(pensativo) Representou muito trabalho e muita felicidade por termos trabalhado neste álbum e por termos conseguido algo do qual estamos muito orgulhosos. É um álbum que finalmente conseguimos ouvir e indentificar o nosso som. “Isso é afro beat, é kuduro… Não, é Buraka”. E é exatamente por isso que lhe chamámos só de “Buraka”, porque conseguimos encontrar, ao fim de oito anos, o nosso género de fazer música e que é impossível eu fazer sozinho, o Branko fazer sozinho, o Conductor fazer sozinho. Só quando estamos juntos é que isso acontece. Estamos muito orgulhosos dessa fase na nossa vida porque é o culminar dos Buraka Som Sistema no que diz respeito à produção musical. Nós conseguimos fazer música do tipo “ah, isso é mesmo Buraka Som Sistema, não é uma banda qualquer”.

Toda a gente já é capaz de perceber logo que é um som de vocês.

Penso que sim. Por isso é que também de 30 e tal músicas que tínhamos feito, saíram dez. Aquelas dez são as dez perfeitas. Às vezes apetece pôr mais e mais… Mas não. Vão só estas. Depois logo se vê as outras.