“The Pale Emperor” de Marilyn Manson

Para “Álbum da Semana” decidi partilhar convosco a crítica que fiz ao novo álbum de Marilyn Manson, The Pale Emperor. 

Marilyn Manson

The Pale Emperor

Hell, etc.

14/20

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O músico americano Marilyn Manson está de volta ao mundo pesado da música, após um descanso de três anos, com um novo álbum: The Pale Emperor. O sucessor de Born Villain é, provavelmente, um dos discos mais acessíveis da banda. As 10 músicas que compõem este álbum são quase todas calmas, talvez por terem um toque de blues. Não há nada de novo em The Pale Emperor. Não há agressividade, nem indignações, nem sons novos. Não encontramos aqui o escandaloso artista que aterrorizava a nossa infância. Encontra-se um Marliyn Manson cansado, um pouco perdido, sem rumo e sem ideias para causar impacto ou aterrorizar o mundo. Por incrível que pareça, é um álbum simples e vulgar. Muito apetitoso logo no inicio,  mas o prazer pelo menos vai morrendo aos poucos.  Marilyn Manson está a dizer “olá” à reforma.

Texto por: Laura Pinheiro

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“Highway Moon” de Best Youth

1349084796_Best Youth 01 - by João Sousa le-joy.org

Highway Moon

Best Youth

2015

Classificação: 4/5

Beber uma caipirinha, de cigarro na mão, a suspirar por um passo de dança com o corpo livre e tranquilo a observar as histórias que as estrelas formem numa noite quente de verão é o que apetece fazer  (e sentir) ao ouvir Highway Moon, o disco de estreia do duo português Best Youth.

As onze músicas que compõem o álbum são viciantes, tornando-o sofisticado e delicado ao comando do indie pop. Feito à medida do timbre particular de Catarina Salinas (vocalista), Ed Rocha Gonçalves leva-nos pelo desfiladeiro da curiosidade e descobrimento de novos horizontes musicais para os ouvidos comuns. Highway Moon oferece-nos a oportunidade de voar pelo mundo da electrónica, da dança e da nostalgia. No entanto, não foge às regras da fragilidade, da sensualidade e das lágrimas de tristeza. Dois mundos opostos que se unem num só com apenas dois corpos a controlar as normas do que se deve sentir.

Foram precisos 3 anos (entre o EP e o LP) para amadurecerem e renovar o velho para o novo mais requintado e marcarem, com mais convicção, a presença do “eu”  nas onze músicas que compõem o disco.  Ainda bem que o fizeram! O toque de requinte deste álbum é deveras viciante e é impossível ficar indiferente à musicalidade de ambos, em particular, à voz sensual da vocalista. A caipirinha no inicio da noite não vai ser suficiente… com a luz da lua cheia a iluminar a noite, vão ser precisos dois passos de dança para brindar ao talento português, aos Best Youth e ao Highway Moon.

Texto por: Laura Pinheiro

Sufjan Stevens – Carrie & Lowell

Sufjan Stevens

“Carrie & Lowell”
Asthmatic Kitty, 2015
19/20

“Isto não é o meu projecto artístico. Isto é a minha vida.”, Carrie & Lowell nas palavras de Sufjan Stevens, o seu último álbum, uma obra esmagadora de rara beleza. E o que dizer de um álbum que soma uma vida? Como se conhece e se ama uma mãe ausente depois da sua morte? Carrie & Lowell com os seus arranjos de guitarras e teclados lo-fi suaves, delicadamente entrelaçados com elementos electrónicos, é curiosamente o álbum menos majestoso em termos musicais do talentoso multi-instrumentista Sufjan Stevens, porque aqui interessam as palavras e essas são de uma força inabalável, um murro no estômago que abraçamos sem medo. Neste conjunto canções de embalar para o sono profundo da morte, perdemos e reencontramos a nossa mãe, e nosso amor é incondicional.

Texto por: Vera Brito

“Short Movie”, de Laura Marling

Solidão, espiritualismo e a assertividade do costume fazem de Short Movie mais um declarado triunfo para Laura Marling.

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Aos 24 anos e com 4 discos aclamados no bolso, a cantautora britânica sentiu necessidade de fazer um interregno artístico para melhor compreender o que poderia vir a seguir na sua carreira. A paragem levou-a a fazer-se à estrada do deserto da Califórnia (vagueou por Los Angeles, Joshua Tree e pelo Mount Shasta) onde se distanciou de Laura, a intérprete, e se redescobriu enquanto pessoa.

Short Movie é então o recolher dos fragmentos deixados ao longo de uma jornada de autodescoberta em que chegou a duvidar se algum dia conseguiria voltar a fazer música. A típica crise do primeiro quarto século de vida, portanto.

O processo de gravação e composição trouxe visíveis mudanças na sonoridade de Laura Marling, que neste álbum acumula também a função de produtora executiva. Entre elas a mais evidente será o recurso à guitarra eléctrica (presente em “False Hope”, o primeiro single do registo, ou em “Don’t Let Me Bring You Down”) que convive pacificamente com o seu passado acústico mais próximo das tradições folk.

Existem também devaneios bluesy na serenata à lua de “Howl” (“howl at the moon, I’ll come find you”), aproximações ao cancioneiro de Joni Mitchell nas sofridas “How Can I” e “Walk Alone” e um certo espírito de faroeste em canções como “Warrior”, “Strange” ou “Gurdjieff’s Daughter”, estas últimas a receber as prestações vocais mais inspiradas do disco, num spoken-word digno de quem veste as calças e o chapéu de cowboy.

Liricamente, Laura Marling continua tão irrepreensível como dantes, com palavras firmes e duras a sair-lhe com a leveza de uma brisa primaveril. Há desolação passional em “Warrior (“I can’t be your horse anymore, you’re not the warrior I’ve been looking for”), desnorte interior em “False Hope” (“Is it still okay that I don’t know how to be at all?”), temores da jornada presentes em “Don’t Let Me Bring You Down” (“living here is a game I don’t know how to play”) e a redenção pessoal alcançada por via da espiritualidade em “Worship Me”, a bonita faixa de encerramento (“devote your life to peace and breathe”).

Cinco álbuns e um quarto de século de vida às costas e Laura Marling parece ter chegado ao cume da montanha: aquilo que já conquistou a nível criativo, é muito mais do que a grande maioria das suas congéneres poderão um dia vir a alcançar. “I’m just a horse with no name”, canta em “Warrior” – que essa liberdade criativa e de espírito a acompanhem por muitos anos mais.

Texto de: Gonçalo Dias.

“Colossal Youth”, de Young Marble Giants

Para álbum da semana escolhi um que me inspirou nas últimas semanas, pela sua simplicidade, num daqueles casos em que não deve ser confundida com banalidade.

“Colossal Youth” foi lançado em 1980, na fértil altura do Pós-Punk, em que surgiam bandas aos milhares resultantes dos estilhaços deixados pela revolução recente, por uma editora de carácter alternativo chamada Rough Trade, que editou também Pere Ubu e chegou ao segundo lugar dos álbuns mais bem sucedidos pela mesma, com 27000 vendas no primeiro ano do seu lançamento, algo significativo no meio indie.

A sonoridade da banda, originária do País de Gales, é caracterizada pela fuga à anarquia do punk, sob a influência de nomes como Bowie, Kraftwerk ou Tom Waits, com a guitarra, teclados e baixo dos irmãos Moxham, Stuart e Philip, a combinarem de forma soberba com a voz honesta e descomplexada de Alison Statton e o minimalismo de uma caixa de ritmos,  sempre numa lógica “low-key” que coloca o álbum num espaço único.

A verdade é que os YMG terminaram pouco depois, devido a desentendimentos entre os seus elementos e ainda que se fale num possível segundo registo passados cerca de 30 anos, após o regresso da mesma aos palcos (tendo passado por Portugal), o seu único álbum continua a merecer uma atenta audição.

Texto por: Zé Revés

King Krule – “6 Feet Beneath the Moon”

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Archy Marshall, mais conhecido como King Krule, é uma das personagens ímpares que se vai erguendo no meio da confusão. Em 2013 lançou o álbum “6 Feet Beneath the Moon” com o selo das editoras XL Recordings e True Panther Sounds.

O jovem britânico é a banda sonora dos becos escuros. A sua voz “bêbada” e rouca leva-nos a passeio como se tivéssemos acabado de sair dum pub. É difícil classificar o que Archy faz. A mistura de géneros passa pelo trip hop, jazz, punk, dub, etc. Simplificando, é um miúdo de 20 anos a dar-nos belas canções de amor.

Ainda não se sabe se o britânico está a trabalhar no próximo lançamento e em 2014 só nos deixou uma colaboração com Ratking – colectivo hip hop de Nova Iorque. Um nome a seguir.

Texto por: Alexandre Ribeiro

Monobloco – Ao Vivo

Arrasta a mesa de centro para o lado que o Carnaval está prestes a aterrar na tua sala. É o Monobloco! Ao vivo e a cores, um dos grupos brasileiros mais famosos de percussão leva-te a um dos Carnavais mais dignos do mundo no CD e DVD “Monobloco – Ao Vivo” lançado em 2005. Bem-vindo ao Brasil!

Sai do chão que esse é um álbum impossível de ouvir sentado ou parado! É muito samba no pé e clássicos da música brasileira sendo reinterpretados pelo batuque do Monobloco comandado no vocal pelo ícone do subúrbio carioca e do baile charme, o ator e cantor Sérgio Loroza, e os cantores Pedro Luís, Rodrigo Maranhão e Fábio Allman. É um verdadeiro Carnaval dentro da tua própria sala.

Poupa na vaidade. Esse é um item dispensado depois alguns minutos ao som do bloco (orquestras de instrumentos percussivos, em sua maioria, e que desfilam nas ruas durante o Carnaval) mais agitado do Rio de Janeiro. É para pular, para suar, para “mexer as cadeiras”, como se diz no Brasil. Mesmo quem não saiba acompanhar as músicas, que acompanhe na vibração positiva emitida pelo grupo, que não cansa nem um segundo, encarnando o verdadeiro espírito carnavalesco.

Foca na hidratação e esquece as aulas de dança. Água, impreterivelmente, será requisitada aos litros em meio a audição desse DVD. Acredita. Já a dança… Sinceramente? Ninguém está a se lixar para o modo como estás a sentir a música, contanto que a sintas. Parado é que não pode ficar com um repertório embalado por ritmos brasileiros que balançam o povo de norte a sul do país. Tem funk carioca, samba, forró, MPB e soul music enchendo o público presente no Circo Voador (casa de eventos do Rio de Janeiro) de swing naquela noite de 10 anos atrás.

Deixa a vergonha de lado, menina (o). Como diz uma marchinha tradicional brasileira, “não me leve a mal. Hoje é Carnaval!”. E com essa desculpa, “se joga” na pista, seja ela escondida dentro do quarto ou nas festas de rua. No dia que conseguir, aí, sim, terá entendido o verdadeiro significado do Carnaval, que anda lado a lado com o que é o Monobloco.

A empolgação emanada do palco desse DVD é tanta que chega ao ouvinte do outro lado do oceano, e, automaticamente, vai balançando os ombros, as mãos, e quando percebe já está de pé a requebrar ao som do bloco carioca. Esse álbum é um convite irresistível ao melhor Carnaval do mundo e no quesito música, a nota é 20!

Texto por Mayra Russo.