Ciclo de concertos na Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian abriu as suas portas ao sol, à boa disposição e a novas mentes musicais. Foram quatro dias de muito “power”, de muita entrega à música, à alma e à nova estação que se avizinha com muita alegria. Foi neste ambiente que a Gulbenkian recebeu, de braços abertos, a violoncelista Natalia Gutman, o Quarteto de Cordas de Matosinhos, a maestrina Joana Carneiro, a maestrina Susanna Mälkki e o violoncelista Pavel Gomziakov para grandes concertos.

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Decidi fazer uma maratona de concertos à Gulbenkian e fui ver, num espaço de uma semana, 4 concertos (isto para mim é só um cheirinho, pois já fui ver 8 concertos em 3 dias – Dias da Música em Belém). O primeiro de todos foi no dia 12 de Maio, onde observei a presença única da violoncelista russa Natalia Gutman a tocar suites para violoncelo de Bach. Para quem aprecia as obras de Bach sabe que estas são muito delicadas e muito sensíveis e quando comecei a ver a violoncelista a tocar toda à “rock”, fiquei assustada. “Esta mulher é louca… a tocar Bach com esta brutalidade”, pensei na minha consciência boquiaberta. O facto de vê-la tocar tão em cima do cavelete, com uma postura de entrega ao instrumento e de um olhar fixo num só objetivo, vi logo que ela era um exemplo de um instrumentista com alma ‘rockeira’, e que Bach não era para ela. Apercebi, de imediato, que ao fim de 2 dias ela estaria à frente da Orquestra Gulbenkian a executar a obra de Dmitri Chostakovitch (concerto para violoncelo e orquestra nº1, op. 107), e aí expressei com alívio: “É obra perfeita para ela! Toda à bruta, toda à rock!”. E foi, com muito entusiasmo e curiosidade, que chegou o dia 14… o dia em que a Natlia Gutman ia por abaixo a Fundação Gulbenkian.

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Todos os presentes na Fundação ansiavam pelo início do concerto e comentavam entre eles: “É hoje que os velhotes vão saber o que é realmente música rock e heavy meta!” ou “este é aquele tipo de concerto histórico que só acontece de vez em quando, e há-que marcar presença nele!”. Ao ouvir estes comentários, compreendi logo que eu estava certa. E foi ao compasso de Modest Mussorgsky que a mestrina Susanna Malkki deu entrada ao concerto com a Orquestra Gulbenkian. Esta primeira parte não correu lá muito bem, havendo uns desentendimentos por parte dos naipes dos sopros com os naipes das cordas, algo que a maestrina não conseguiu controlar. Um amigo meu, que se sentava ao meu lado, disse: “Oh… o que se passou aqui! Mas, relaxem! O rock já vai começar!”, fazendo o gesto do rock n’roll com as mãos. E assim foi…. Natalia Gutman entrou e ‘partiu a loiça’ toda com o seu violoncelo. Foi extramente admirável ver esta ‘senhora’ violoncelista executar uma obra tão pura com a mais bela perfeição (atenção: há que dar destaque que Natalia Gutaman tem 72 anos). Claro que se notou o cansaço da idade, mas nada disso impediu, ou impede, a violoncelista de tocar como sempre tocou. Com muitas calorosas palmas, assobios, aplausos de pé e “bravos”, Natalia Gutman abandonou o palco com um enorme sorriso no rosto… “Tão fofinha!”, disse para mim própria. A Orquestra Gulbenkian terminou a noite com Béla Bartok.

Exemplo da obra que Natlia Gutman tocou na Gulbenkian:

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No dia seguinte, 15 de Maio, foi a vez do Quarteto de Cordas de Matosinhos interiorizar a alma de ‘rock’. Há dois anos perdi a oportunidade de ver este quarteto no Teatro Micaelense (São Miguel – Açores) e até aquele momento arrependi-me imenso de não ter aproveitado a ocasião, pois sempre ouvi boas críticas deles e tinha muita curiosidade de conhecê-los. Com obras de Felix Mendelssohn – Bartholdy, Vianna da Motta e Dmitri Chostakovitch, o quarteto deslumbrou o público na plateia da Gulbenkian, com a alegria nos seus rostos, com a comunicação entre os quatro, com a boa música que proporcionaram e com toda a arte que ali foi transmitida. O público não ficou aquém e aplaudiu de pé com muitos ecos de “bravo”. E finalmente chegou o concerto que mais ansiava… Dia 21 de Maio a Orquestra Gulbenkian interpretou as obras de Richard Strauss, Stravinsky e Tchaikovsky sob a batuta da grande maestrina Joana Carneiro. A sua postura única, dedicação e expressões fazem qualquer um tentar acompanhar os movimentos à velocidade da luz de Joana Carneiro. “Esta mulher é louca! Não pára quieta um segundo… parece que estou a ver um jogo de ténis”, pensava eu para a minha consciência que estava, novamente, boquiaberta com aquilo que estava a presenciar. Sob a batuta da mesma, entra o violoncelista russo Pavel Gomziakov para interpretar as variações sobre um tema rococó de Tchaikovsky. Mais um momento único e deslumbrante no CCB. Se já era fã da maestrina Joana Carneiro, ainda mais fiquei após ter visto a sua sublime arte pela primeira vez. Após quatro dias de tanta boa música, sai da Gulbenkian encantada e maravilhada, pronta para receber a nova estação com muita alegria e pronta para novos desafios.

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Texto por: Laura Pinheiro

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