Paul Simon “The Boy in the Bubble”

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Talvez influenciado pelo concerto de ontem do angolano Nástio Mosquito, incluído na programação do Festival Rotas & Rituais 2015, dedicado aos 40 anos das independências das ex-colónias portuguesas, decidi escolher para música do dia um tema do nova-iorquino Paul Simon. Mas o que é que este senhor tem a ver com África?!

Em 1986, Paul Simon lança um álbum de seu nome Graceland, que para além de ser dos melhores da sua carreira é também um disco especial, já que junta o cantor e compositor com músicos e ritmos africanos.
O resultado final é algo de belo e único.

Deste disco poderia escolher vários temas, acabei por optar pela canção de abertura “The Boy in the Bubble”, por ser um tema lindíssimo e que exemplifica bem o que é este álbum. Quatro anos depois, Paul Simon faria algo parecido em The Rhythm Of The Saints, mas neste caso os ritmos vieram do Brasil.

Texto por João Catarino

Ciclo de concertos na Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian abriu as suas portas ao sol, à boa disposição e a novas mentes musicais. Foram quatro dias de muito “power”, de muita entrega à música, à alma e à nova estação que se avizinha com muita alegria. Foi neste ambiente que a Gulbenkian recebeu, de braços abertos, a violoncelista Natalia Gutman, o Quarteto de Cordas de Matosinhos, a maestrina Joana Carneiro, a maestrina Susanna Mälkki e o violoncelista Pavel Gomziakov para grandes concertos.

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Decidi fazer uma maratona de concertos à Gulbenkian e fui ver, num espaço de uma semana, 4 concertos (isto para mim é só um cheirinho, pois já fui ver 8 concertos em 3 dias – Dias da Música em Belém). O primeiro de todos foi no dia 12 de Maio, onde observei a presença única da violoncelista russa Natalia Gutman a tocar suites para violoncelo de Bach. Para quem aprecia as obras de Bach sabe que estas são muito delicadas e muito sensíveis e quando comecei a ver a violoncelista a tocar toda à “rock”, fiquei assustada. “Esta mulher é louca… a tocar Bach com esta brutalidade”, pensei na minha consciência boquiaberta. O facto de vê-la tocar tão em cima do cavelete, com uma postura de entrega ao instrumento e de um olhar fixo num só objetivo, vi logo que ela era um exemplo de um instrumentista com alma ‘rockeira’, e que Bach não era para ela. Apercebi, de imediato, que ao fim de 2 dias ela estaria à frente da Orquestra Gulbenkian a executar a obra de Dmitri Chostakovitch (concerto para violoncelo e orquestra nº1, op. 107), e aí expressei com alívio: “É obra perfeita para ela! Toda à bruta, toda à rock!”. E foi, com muito entusiasmo e curiosidade, que chegou o dia 14… o dia em que a Natlia Gutman ia por abaixo a Fundação Gulbenkian.

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Todos os presentes na Fundação ansiavam pelo início do concerto e comentavam entre eles: “É hoje que os velhotes vão saber o que é realmente música rock e heavy meta!” ou “este é aquele tipo de concerto histórico que só acontece de vez em quando, e há-que marcar presença nele!”. Ao ouvir estes comentários, compreendi logo que eu estava certa. E foi ao compasso de Modest Mussorgsky que a mestrina Susanna Malkki deu entrada ao concerto com a Orquestra Gulbenkian. Esta primeira parte não correu lá muito bem, havendo uns desentendimentos por parte dos naipes dos sopros com os naipes das cordas, algo que a maestrina não conseguiu controlar. Um amigo meu, que se sentava ao meu lado, disse: “Oh… o que se passou aqui! Mas, relaxem! O rock já vai começar!”, fazendo o gesto do rock n’roll com as mãos. E assim foi…. Natalia Gutman entrou e ‘partiu a loiça’ toda com o seu violoncelo. Foi extramente admirável ver esta ‘senhora’ violoncelista executar uma obra tão pura com a mais bela perfeição (atenção: há que dar destaque que Natalia Gutaman tem 72 anos). Claro que se notou o cansaço da idade, mas nada disso impediu, ou impede, a violoncelista de tocar como sempre tocou. Com muitas calorosas palmas, assobios, aplausos de pé e “bravos”, Natalia Gutman abandonou o palco com um enorme sorriso no rosto… “Tão fofinha!”, disse para mim própria. A Orquestra Gulbenkian terminou a noite com Béla Bartok.

Exemplo da obra que Natlia Gutman tocou na Gulbenkian:

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No dia seguinte, 15 de Maio, foi a vez do Quarteto de Cordas de Matosinhos interiorizar a alma de ‘rock’. Há dois anos perdi a oportunidade de ver este quarteto no Teatro Micaelense (São Miguel – Açores) e até aquele momento arrependi-me imenso de não ter aproveitado a ocasião, pois sempre ouvi boas críticas deles e tinha muita curiosidade de conhecê-los. Com obras de Felix Mendelssohn – Bartholdy, Vianna da Motta e Dmitri Chostakovitch, o quarteto deslumbrou o público na plateia da Gulbenkian, com a alegria nos seus rostos, com a comunicação entre os quatro, com a boa música que proporcionaram e com toda a arte que ali foi transmitida. O público não ficou aquém e aplaudiu de pé com muitos ecos de “bravo”. E finalmente chegou o concerto que mais ansiava… Dia 21 de Maio a Orquestra Gulbenkian interpretou as obras de Richard Strauss, Stravinsky e Tchaikovsky sob a batuta da grande maestrina Joana Carneiro. A sua postura única, dedicação e expressões fazem qualquer um tentar acompanhar os movimentos à velocidade da luz de Joana Carneiro. “Esta mulher é louca! Não pára quieta um segundo… parece que estou a ver um jogo de ténis”, pensava eu para a minha consciência que estava, novamente, boquiaberta com aquilo que estava a presenciar. Sob a batuta da mesma, entra o violoncelista russo Pavel Gomziakov para interpretar as variações sobre um tema rococó de Tchaikovsky. Mais um momento único e deslumbrante no CCB. Se já era fã da maestrina Joana Carneiro, ainda mais fiquei após ter visto a sua sublime arte pela primeira vez. Após quatro dias de tanta boa música, sai da Gulbenkian encantada e maravilhada, pronta para receber a nova estação com muita alegria e pronta para novos desafios.

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Texto por: Laura Pinheiro

“Highway Moon” de Best Youth

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Highway Moon

Best Youth

2015

Classificação: 4/5

Beber uma caipirinha, de cigarro na mão, a suspirar por um passo de dança com o corpo livre e tranquilo a observar as histórias que as estrelas formem numa noite quente de verão é o que apetece fazer  (e sentir) ao ouvir Highway Moon, o disco de estreia do duo português Best Youth.

As onze músicas que compõem o álbum são viciantes, tornando-o sofisticado e delicado ao comando do indie pop. Feito à medida do timbre particular de Catarina Salinas (vocalista), Ed Rocha Gonçalves leva-nos pelo desfiladeiro da curiosidade e descobrimento de novos horizontes musicais para os ouvidos comuns. Highway Moon oferece-nos a oportunidade de voar pelo mundo da electrónica, da dança e da nostalgia. No entanto, não foge às regras da fragilidade, da sensualidade e das lágrimas de tristeza. Dois mundos opostos que se unem num só com apenas dois corpos a controlar as normas do que se deve sentir.

Foram precisos 3 anos (entre o EP e o LP) para amadurecerem e renovar o velho para o novo mais requintado e marcarem, com mais convicção, a presença do “eu”  nas onze músicas que compõem o disco.  Ainda bem que o fizeram! O toque de requinte deste álbum é deveras viciante e é impossível ficar indiferente à musicalidade de ambos, em particular, à voz sensual da vocalista. A caipirinha no inicio da noite não vai ser suficiente… com a luz da lua cheia a iluminar a noite, vão ser precisos dois passos de dança para brindar ao talento português, aos Best Youth e ao Highway Moon.

Texto por: Laura Pinheiro

David Fonseca “Futuro Eu”

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“Futuro Eu” é o primeiro avanço para o novo ciclo da carreira de David Fonseca. Artista com uma criatividade enorme, não soube no entanto aproveitá-la nestes últimos anos, preferindo acomodar-se à sombra do sucesso que um público específico, gente jovem que vai para os concertos mais preocupado com as selfies do que com o espetáculo em si, lhe garantia, tornando-se previsível e caindo numa rotina artística que já não acrescentava nada de novo.

Chegados a 2015, e depois de um 2014 marcado pelo regresso dos Silence 4, David Fonseca apresenta-nos uma nova música, e respetivo vídeo, que nos deixa com vontade de ouvir o álbum que aí vem. O artista de Leiria volta a surpreender-nos como já não o fazia há muito tempo. “Futuro Eu” é uma grande canção e revela uma ambição que esteve abafada durante alguns anos. O respetivo vídeo só vem confirmar e reforçar tudo isso.

Há uma coisa que é importante também destacar, o cantor interpreta o tema em português, algo que só me apercebi à décima audição, o que só revela que David Fonseca se adaptou da melhor forma, o ter já feito no passado terá ajudado, ao cantar em português.

Texto por João Catarino

O festival com o melhor cartaz em 2015

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Quando os festivais vingaram em definito em Portugal, já eu tinha uma certa idade e por isso nunca embarquei naquela lógica de festivaleiro e de ir a um desses eventos mais pelo acontecimento em si do que propriamente pelas bandas que lá vão atuar.

O que me leva sempre a ir a um festival não é, nem nunca foi, o estar em determinado ambiente ou local, os “presentes” que por lá oferecem, o consumo de álcool ou lá do que seja, ou então para dizer a toda a gente que estou ali e que por isso, vá-se lá saber porquê, sou o maior.

O que sempre fez com que comprasse um bilhete para um festival foi uma banda específica que o cartaz oferecia. Diga-mos que ao comprar o bilhete, na minha cabeça era quase como se estivesse a comprar para um concerto normal, num qualquer local.

Este ano, e pela primeira vez, adquiri um passe para a totalidade de um festival. Estou a falar do Super Bock Super Rock 2015, que na minha opinião é aquele que apresenta o melhor cartaz para a temporada que aí vem.

Um dos primeiros nomes a ser apresentado foi o de Noel Gallagher e logo aí tomei a decisão de ir ao primeiro dia. Depois, veio a confirmação de Florence and The Machine, que inicialmente por si só não me convenceu a comprar o passe, e eu que estive para a ver quando fui ao Optimus Alive 2012 ver os The Cure. Mas depois vieram os Blur e aí tudo mudou. Para mim era “obrigatório” ir ver o génio dos Oasis e os Blur e como saía mais barato comprar o passe para os três dias do que dois bilhetes, um para cada dia, acabei por me decidir na aquisição do pack especial para todo o festival. E assim, para além dos nomes que me levam a estar presente na edição deste ano do Super Bock Super Rock, poderei assistir também a outros concertos que me interessam, nomeadamente de, já atrás referido, Florence and The Machine, Sting, Franz Ferdinand, Sérgio Godinho, infelizmente não a solo mas acompanhado com o decadente Jorge Palma.

Lá estarei, de 16 a 18 de julho, no Parque das Nações, para, pela primeira vez, estar presente em todos os dias de um festival, exatamente naquele que para mim apresenta o melhor cartaz este ano.

Texto por João Catarino

As melodias de quatro acordeões ecoaram música ‘contemporânea’ com Danças Ocultas

O grupo musical português Danças Ocultas subiu ao palco do grande Auditório do CCB, no passado dia 5 de Maio, com a Orquestra Filarmonia das Beiras e como convidados Rodrigo Leão, Dead Combo e Carminho, para um momento musical mágico com os vários géneros musicais e instrumentais.

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Com a sala praticamente cheia, Danças Ocultas trouxeram aos portugueses algo diferente do habitual em relação ao instrumento acordeão. Com a orquestra Filarmonia das Beiras a abrir o espetáculo, começou logo por animar os espectadores com muita música jovial. Com luzes a iluminar somente o palco e a restante sala na escuridão da curiosidade, entraram os quatro músicos com os seus acordeões, que receberam de imediato calorosas palmas.

Melodias diferentes em cada acordeão se espalhavam, mas em poucos segundos que se tornavam numa só melodia ‘dançarina’, juntamente com a sonoridade das cordas da orquestra.

Após algumas músicas, Rodrigo Leão entrou em palco, por duas vezes, para partilhar a sua arte no piano com a arte que estava em palco. Assim tocaram todos em conjunto “Tardes de Bolonha” e “Danças d’Alba”. A orquestDSC_6868ra tocava, os acordeões lançavam e ‘dançavam’ notas por toda a sala, quando, do nada, entraram em palco os Dead Combo. O público não resistiu e bateu palmas, contudo a música continuava. Assim se sucedeu, num bis, na segunda parte do concerto, com a música misteriosa, ‘louca’ e deliciosa de Dead Combo.

De tranquilidade e harmonia (luzes azuis) passámos, num click, para paixão e energia (luzes vermelhas), com a calorosa voz da fadista portuguesa Carminho. A fadista deslumbrou todos os presentes com a sua voz num momento único e representativo do nosso país: Fado.

MaiDSC_7001s músicas surgiram naquela noite. Com mais um toque de passo de dança, com repetições, com muita música e com muitos sorrisos de satisfação por parte do público e dos músicos, que não só proporcionaram uma grande noite como espalharam muita alegria e muita coisa nova para os ouvidos dos portugueses.

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Texto por: Laura Pinheiro

Fotos de: Ricardo Gomes e Tiago Martinho