Russian Circles apoteóticos no RCA Club em Lisboa

Os ventos sopraram fortes de Chicago e trouxeram os Russian Circles de volta ao nosso país para uma noite intensa no RCA Club em Lisboa. 

Pouco passaria das 22h quando os Russian Circles entraram em palco após um curto soundcheck feito pelos próprios e depois de um bom aquecimento que ficou a cargo de Helms Alee, banda que os tem acompanhado ao longo desta tour pela Europa. Não existem sequer microfones no palco e decorridos alguns minutos de concerto já se ouvia a típica voz idiota lá atrás “eu esta sei a letra!”, como se os Russian Circles precisassem de palavras para criar histórias. Histórias essas bem delineadas nos seus álbuns de estúdio que em concerto ganham vida e se cruzam em diferentes momentos.

O trio de Dave Turncrantz (bateria), Brian Cook (baixo) e Mike Sullivan (guitarra) é quanto basta para criar instrumentais complexos que transcendem palavras, paisagens sonoras cheias de texturas e crescendos poderosíssimos que transformam qualquer menino de coro num aficionado de headbanging. Esta equação, bateria + guitarra + baixo, parece simples mas só resulta porque existe talento de sobra em todos os factores. Dave Turncrantz com o seu ar introvertido é o motor e ao início o fumo que cobria a banda numa atmosfera densa, quase nos fez temer que não conseguíssemos apreciar a destreza, precisão e ferocidade com que ataca a bateria. A nossa concentração é total no palco e o nosso olhar divide-se entre os três, nas linhas pesadas do baixo de Brian Cook e na guitarra fluída de Mike Sullivan, ambos constroem com efeitos de pedais várias camadas sonoras que aproximam na perfeição a sua actuação ao vivo do trabalho de estúdio, e que quase nos fazem duvidar se não estará mais alguém a tocar atrás da cortina.

Os Russian Circles estão algures entre o post-rock ou o post-metal, géneros musicais que os próprios recusam como definição absoluta da sua sonoridade, e nesta noite trouxeram-nos músicas dos seus vários trabalhos, a obscura e pesada “Deficit ou a apoteótica “1777“, do seu último álbum Memorial de 2013. Também não faltou “Mlàdek”, talvez a sua música mais conhecida, de Empros de 2011, que é um exemplo perfeito de como os Russian Circles conseguem transições sublimes entre melodias etéreas e sons pujantes que nos atravessam as entranhas.

Importa ainda falar do ambiente que se sentiu nesta noite no RCA Club, quando pensamos nos dias de hoje em que se vive na era dos festivais megalómanos com as suas muitas distracções e miúdas de coroas de flores, onde a ideia de concerto parece ter perdido todo o significado e o que acontece em cima do palco serve muitas vezes apenas como pano de fundo para uma selfie. Quem ainda não desistiu da música, daquela que realmente interessa, sem tretas, dá cada vez mais valor a noites como a que se viveu hoje no RCA, que mesmo não oferecendo as condições sonoras mais ideais, e isso sentiu-se sobretudo na primeira parte nos vocais um pouco abafados do trio Helms Alee, conseguiu criar o ambiente perfeito para receber alguém como os Russian Circles. Dificilmente existirão muitas bandas capazes de conseguir uma ligação tão intensa com o seu público sem dizer sequer uma única palavra desde o momento que entram até que abandonam o palco. A música quando é de outro mundo não precisa de mais nada.

O concerto teve lotação esgotada e foi organizado pela Amplificasom.

Texto por: Vera Brito

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