Gisela João ao vivo no Coliseu de Lisboa

Casa cheia para escutar a fadista mais transversal e aclamada da nova geração, naquela que foi a sua estreia memorável na mítica sala de espectáculos lisboeta.

O Coliseu dos Recreios enchia a conta-gotas para receber a maior revelação do fado nesta década, mesmo com o aviso prévio de que as portas fechariam às 21h30. Se assim fosse, Gisela teria actuado para mais cadeiras do que pessoas, facto que a levou a subir ao palco cerca de 15 minutos depois da hora marcada, quando já não cabia vivalma na plateia.

Eis que somos brindados com o primeiro de vários “diários de bordo” (interlúdios previamente gravados) escutados ao longo da noite, que nos guiam pela história da menina-mulher que se fez fadista. O pano sobe e revela então a cantora num emaranhado de folhos brancos pelo joelho combinados com ténis da mesma cor num estilo muito sui generis que convém apelidar de ‘Gisela Style’. O cenário alberga três músicos, uma árvore, ondas do mar e o nome da cantora estampado em letras gigantes sob a forma de nuvem.

A fadista de Barcelos não só percorre as canções da arrebatadora estreia, das mais sofridas e épicas “Meu Amigo Está Longe” e “Vieste do Fim do Mundo”, aos desarmantes corridinhos “Malhões e Vira”, “(A Casa da) Mariquinhas” ou “Bailarico Saloio”, acompanhados de palmas e bater de pés, como homenageia alguns dos fadistas que mais a influenciaram (Amália Rodrigues em “Que Deus Me Perdoe” e Beatriz da Conceição em “Voltaste”) e ainda se aventura em fados nunca antes cantados ao vivo, como foi o caso de “Meu Corpo”, “Senhor Extra Terrestre” ou “Canção Grata”. Sempre com o coração na boca, sempre maior do que a vida, sempre tão Gisela.

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Ouvi-la falar é quase tão maravilhoso quanto ouvi-la cantar. Cativa pela presença compacta e poderosa, pela informalidade com que se apresenta, pela naturalidade dos gestos, do aroma do sotaque nortenho, pela espontaneidade com que interage com o público (momento alto quando interpela dois “fugitivos”, pensando que se vão embora), incitando a que este “cante e baile sem timidez” e pela capacidade de alternar entre registos mais dramáticos ou mais leves e efusivos, ora canalizando mágoa de joelhos no chão, ora num corrupio de pés, mãos no ar e voltas rápidas.

Os primeiros sinais da despedida são feitos ao som de “Valentim”, com direito a chuva de confettis e a presença do Rancho Folclórico do Minho em palco, mas à espreita está ainda um sumptuoso encore composto por umas 5 canções, entre elas o formidável “Madrugada sem Sono”, a receber a maior ovação da noite, e o veloz “Antigamente”, que encerra com o já mítico verso que parece dar o mote à carreira de Gisela: “não é fadista quem quer, mas sim quem nasceu fadista”.

Final da festa. Saímos de coração cheio e com a certeza de que foi tão bom para Gisela João quanto foi para nós. Assim o diz o sorriso largo estampado no rosto – o dela e o nosso.

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Texto por Gonçalo Dias

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