“Broke With Expensive Taste” de Azealia Banks

Azealia-Banks-Miss-Amor

Azealia Banks tinha tudo para ter feito uma entrada triunfal na indústria – canções explosivas, um imaginário ousado e uma personalidade fortíssima. Infelizmente, revelava também uma grande aptidão para desencadear acesas discussões no Twitter, onde disputas com Angel Haze, Lily Allen, Perez Hilton ou Disclosure foram, aos poucos, remetendo a música para segundo plano.

À medida que ia coleccionando inimigos de profissão e denegrindo a olhos vistos a imagem pública, a demora pelo álbum de estreia tornava-se demasiado insustentável e a coisa eventualmente esmoreceu. Até ao passado dia 6 de Novembro, em que ao melhor estilo de Beyoncé, Broke with Expensive Taste é lançado sem aviso prévio no iTunes. Dois anos depois da data prevista e três após “212” ter accionado o gatilho. E eis que Azealia Banks volta a causar um terramoto.

Ao longo de 60 loucos e desafiantes minutos desfilam um batalhão de produtores, desfiam-se versos corrosivos e exploram-se géneros musicais tão equidistantes do hip hop como a Terra do Sol. Mas é sempre o carisma, o flow e a intensa musicalidade de Azealia que permitem o triunfo desta estreia megalómana.

“Idle Delilah” e “Wallace” trazem o afrobeat e percussão ancestral para o álbum; “Desperado” soa à colaboração não finalizada com os Disclosure, com a sua toada 2-step garage a transportar-nos para o final da década de 90; “Soda” é um refresco melódico confessional; “JFK” é o que melhor capta a ambiência hip house de 1991, o EP de estreia, sendo o único a contar com um valioso featuring vindo da parte de Theophilus London (possivelmente o único rapper a quem não comprou nenhuma contenda). “BBD”, o único exemplar trap do disco, é resgatado do seu antigo reportório e sabiamente adicionado ao caldeirão de especiarias.

Num patamar superior encontra-se o já mencionado “212”, um tremendo cocktail molotov que arde tão intensamente ou mais ainda que há 1161 dias atrás quando foi libertado. “Ice Princess” impõe o respeito perdido e é escultura digna de lhe abrir novamente as portas ao mainstream, enquanto “Chasing Time”, o tema mais acessível feito pela nova-iorquina, recebe uma das primeiras investidas maioritariamente cantadas e resulta num dos momentos mais infalíveis do registo. Há também witch hop à solta no diabólico “Heavy Metal and Reflective”, com bassline titubeante, flow impecável e um “that’s the loveliest thing I’ve ever heard” final à laia de desafio. Mais amoroso do que isso só escutando “Yung Rapunxel”, tortuoso pedaço de hip hop industrial com verborreia crónica e fúria desmedida.

O prémio de momento mais inusitado é repartido entre “Gimme a Chance” e “Nude Beach A-Go-Go”, dois favoritos pessoais. O primeiro atira-se a estilosas secções de instrumentação de sopro e scratch até se espraiar em território latino, com Azealia a cantar em castelhano. Quando se pensa que a coisa não pode ficar mais estranha, deparamo-nos com o contributo de Ariel Pink para o álbum, retro surf pop trauteável à medida de um sketch humorístico do Saturday Night Live. Simplesmente delicioso.

Na recta final do disco encontramos o velhinho “Luxury” da mixtape Fantasea, ainda hipnótico na sua toada trance/R&B e o seu flow melífluo e sedutor. “Miss Amor” e “Miss Camaraderie”, a dupla final, chegam numa altura em que o filão garage/deep house já está mais do que explorado e por isso soam a retalhos facilmente dispensáveis. Bons, mas dispensáveis.

Obra singular, bizarra e audaciosa, Broke with Expensive Taste pode ter chegado com dois anos de atraso mas cumpre todas as promessas que haviam sido feitas pela maior revelação do rap no feminino surgida no séc. XXI. Se a língua venenosa e os pretensiosismos da fama não se intrometerem no caminho do génio, não tardará muito até que Azealia Banks dê asas à sua fantasia bela, obscura e retorcida. Fingers crossed.

Texto por: Gonçalo Dias

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